Domingo fui saborear Chagall, no MASP. Chego às 11h em ponto (hora que o museu abre) e encontro fila para comprar ingresso. Normal, quem gosta de museu, ainda mais no Brasil, tem que ser tolerante. Meia hora depois continuava na fila. Domingo, fluxo crescente de interessados (amém!), e uma única bilheteria funcionando. Um solitário bilheteiro tentava dar conta daquela centena de “ousados”.
Imagino o trabalho e a dimensão logística para trazer ao Brasil “O Mundo Mágico de Marc Chagall - Gravuras“, uma mostra já apresentada em BH e Rio. Olhei para trás e a fila já chegava na esquina. 11h40 e, finalmente, abre outra bilheteria (“só para quem vai pagar em dinheiro!” – gritou o “novo” bilheteiro).
Me pergunto se o mais importante museu da América Latina só tem uma máquina para cartões? Finalmente compro o ingresso, na fila do “dinheiro vivo”. Já escutava “o próximo!”, quando reclamo onde está o libreto da Exposição. O bilheteiro acena para a fila ao lado (dos usuários de cartão – quilométrica) e sapeca um: “senhora, pode pegar aqui ao lado”. Diante de minha fúria educada, embora incisiva, ele esticou o braço, pegou um Programa ao lado, e me entregou, não sem antes entregar junto um olhar de chateação.
Diante de Marc Chagall esqueci tudo. A exposição no MASP mostra séries emblemáticas de gravuras – uma das formas de expressão preferidas de Chagall – entre elas, as integrais de “La Bible” (105 gravuras) e “Daphnis et Chloé”, sendo essa a coleção de 42 gravuras (guaches), fruto de duas viagens de Chagall à Grécia, entre 1953 e 1954. Outro destaque da mostra é a série “Les Fables de La Fontaine”, com 23 gravuras produzidas entre 1926 e 1927, sendo que a produção original contava com 100 peças. Os guaches das fábulas de La Fontaine foram expostos em 1930 em Paris, Bruxelas e Berlim e, comercializadas, acabaram se dispersando pelo mercado, tornando praticamente impossível a reunião integral da série.
Nascido de família judia na Bielo-Rússia, em 1887, e morto em 1985 no sul da França, esse pintor, gravador e vitralista foi um dos maiores mestres do século XX. Artista criativo, introspectivo, colorista, Chagall desenvolveu além da pintura trabalhos em cenografia, vitrais, mosaicos, cerâmicas, esculturas, criando seu mundo pictórico pessoal quase desligado das vanguardas de seu tempo. Em sua obra cabe de tudo um pouco, cubismo, surrealismo, simbologia judaica e variedades cromáticas. Em 1937, o artista naturaliza-se francês, um privilégio logo revogado quando estoura a Segunda Guerra Mundial e a França, derrotada pela Alemanha, fica dividida. Lento em identificar o perigo de sua posição como judeu (e artista), Chagall foi condenado pelos nazistas como “degenerado”. Foi preso em abril de 1941, mas libertado graças à intervenção norte-americana, partindo novamente para o exílio. Teve uma vida hiper produtiva em 97 anos de existência, deixando uma obra extensa e estupenda.
Desço para ir embora e noto a mesma fila e… os mesmos dois bilheteiros. Curadores movem “mundos e fundos” para trazer uma importante mostra desse artista ao país, mas sabe lá por qual razão economiza-se no acesso à bilheteria. Passei perto de 2h nessa jóia que é o MASP, mas, um quarto do tempo fiquei na fila para comprar ingresso. Aceito ficar enfileirada, sem desgaste, para subir os elevadores do museu, para passar pelo detector de metais (justo), e aceito a fila até pelo acúmulo de visitantes dentro dele. Mas fila para comprar ingresso é descabido. Quem puder, não deve perder a oportunidade de ver as obras de um dos mais importantes gênios artísticos do século passado. Apesar da bilheteria.
* As gravuras integram a mostra em exposição. De cima para baixo: (1) Da série “Dafne e Cloé”; (2) Da série “A Bíblia”; (3) Da série “Fábulas de La Fontaine”.



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