Instrumentos da literatura criminal
por Kelly de Souza | Cinema, Filmes, Literatura, Tecnologia, livros
Duas “ferramentas” são utilizadas exaustivamente nas narrativas policiais, criminais, jurídicas (os chamados “livros de tribunais”), ou em vários outros gêneros da literatura que envolvam mistério, suspense, em que uma simples comprovação de culpa pode ser o clímax da história. Uma dessas ferramentas, com mais de um século de utilização, é a Impressão Digital, outra é o chamado Polígrafo (Detector de Mentiras). A literatura policial, por exemplo, usou a exaustão (e usa) essas tecnologias para confrontar a verdade, tendo grandes autores se especializado em escrever utilizando esses “instrumentos científicos” para dar clima em seus romances, e não poucas vezes para criar um desfecho inusitado. Com o decorrer do tempo, principalmente a partir da segunda metade do século XX, esses instrumentos deram espaço a outros, como testes de DNA, etc., mais em conformidade com as novas realidades tecnológicas da perícia criminal.
Hoje a chamam de Biometria, mas desde há muito tempo (séculos) ela é só conhecida como “impressão digital”. Quantos dramas reais e ficcionais foram desenvolvidos, quantos roteiros, romances, contos, filmes, crônicas e ensaios foram costurados pelas marcas do polegar da vítima, ou da testemunha, ou mesmo do réu? Mas não foi um policial ou cientista que primeiro a utilizou,
mas um magistrado britânico, alocado na Índia, William James Herschel. Foi ele quem introduziu pela primeira vez a impressão digital para identificar funcionários da empresa em que trabalhava. Herschel tornou-se célebre quando, em 28 de julho de 1858, exigiu que Rajyadhar Konai, um homem de negócios nativo, colocasse a impressão de sua mão no verso de um contrato. A ideia inicial era somente causar impacto no negociante, mas Herschel gostou e passou a fazer isso habitualmente, requerendo a impressão da palma da mão, e posteriormente apenas do dedo médio, em todos os contratos. Ele percebeu que não havia duas impressões iguais, e que estas se manteriam inalteradas com o passar dos anos.
Ali começava uma revolução cartorial que mudou a forma de identificar indivíduos, sendo que 30 anos
mais tarde a própria polícia incorporou o método nas investigações criminais. Em 1901, o pesquisador inglês Edward Henry criou o departamento de identificação por impressão digital da Scotland Yard. Era a primeira iniciativa de se criar um banco de dados com as impressões dos criminosos, que poderiam ser comparadas com as marcas deixadas nas cenas dos crimes. O mundo da literatura passava a ter uma engenhosa forma de criar suspense, mistério e contraponto. Não à toa, Sherlock Holmes, o irresistível “detetive consultor” de Conan Doyle, utilizava aquela inseparável lupa. Em Sherlock Holmes And The Norwood Mystery (1903) foi a descoberta de uma impressão digital que o ajudou a expor o verdadeiro criminoso e livrar seu cliente da denúncia.
Já o polígrafo, um instrumento que monitora determinadas reações da pessoa, e é capaz de aferir suas alterações cardíacas, pressão arterial, respiração, etc., propõe que essas mudanças fisiológicas podem detectar se o indivíduo está ou não mentindo. O aparelho só funciona quando é acompanhado de um especialista (polygraph examiner) capaz de fazer as perguntas certas, caso contrário nada funciona, afinal, o ato de mentir é mais velho que “andar para frente”, e dificilmente encontraremos alguém que não o faça em determinadas condições. O grande pensador grego Aristóteles (384-322 a.C), por exemplo, só aceitava duas maneiras de mentir: diminuindo ou aumentando uma verdade. Por qualquer lado que se caminhe, para as disciplinas que estudam hoje o comportamento humano, a mentira é aquilo que se gostaria que fosse verdade. Assim, o polígrafo chegou, junto com muita técnica (e cheio de incertezas e erros), para identificar mentirosos, e a literatura conheceu mais um instrumento capaz de tornar mais reais a suas “mentirosas” histórias ficcionais.
Como toda boa técnica aplicada para confrontar a verdade, tanto a identificação das impressões digitais, quanto o polígrafo, sofreram e sofrem controvérsias de todos os lados. Mas não poucas vezes essas técnicas foram definitivas nas investigações criminais. Timothy James McVeigh foi executado em 2001 (Indiana, EUA) com uma injeção na perna, aos 33 anos. McVeigh e seu amigo Terry Nichols foram condenados (Nichols pegou prisão perpétua) pela explosão da bomba no prédio do governo na cidade de Oklahoma (1995), deixando 168 mortos. No julgamento (1997), houve testemunhas, documentos e muito blá-blá-blá dos advogados, mas segundo os especialistas o que os condenou mesmo foi uma evidência física: duas impressões digitais (uma encontrada em um recipiente contendo a substância utilizada na bomba, e outra deixada na caminhoneta que explodiu em frente ao prédio). Prato cheio para os “CSIs” da TV, para os romances policiais, e até para as comédias.
Recém-lançado, o livro Será Que Ele Mente Para Você? pode ser um bom exemplo de como pensam os especialistas em polígrafo (e como este pode ser usado para praticamente todas as situações). Seu autor, Dan Crum, é graduado e pós-graduado em Psicologia Forense, com especialização em utilização de detectores de mentiras, tendo trabalhado para a CIA como polygraph examiner e em vários outros órgãos governamentais à caça de suspeitos, terroristas e criminosos, etc. Ele aplica inusitadamente as táticas e técnicas utilizadas na CIA, porém, aqui, nos relacionamentos (e, especialmente ao comportamento masculino). Um verdadeiro tutorial sobre a identificação de mentirosos contumazes (ou não) que podem ser percebidos com ou sem o uso do polígrafo.
Nem sempre a verdade está ao lado desses instrumentos, mas na literatura de ficção, nos livros policiais de suspense, nos dramas de detetives, eles podem ajudar um bocado os autores a inventar verdades.



A exposição “Desvios”, que já foi apresentada na I Bienal do Fim do Mundo (Argentina) e na Exposição “Stereovision: from 2D to 3D”, da University of South Florida Contemporary Art Museum (EUA), pode ser vista até o próximo sábado, no Instituto Cervantes, em SP.
Na exposição, o modo de apresentação das fotos (em totens) ganha destaque. Pensando na estética que foge do cânone clássico, do corpo perfeito e harmonioso, como esse conceito se aproxima de sua obra? O ponto de partida foi utilizar um suporte semelhante aos displays publicitários, criando uma ligação direta com a propaganda que promete transformações físicas radicais a partir do uso de produtos ou de procedimentos clínicos. Há um boom de promessas de mudanças estéticas que conduzem ao desejo de adotar um padrão de beleza vigente que é supostamente aceito pela sociedade. O trabalho questiona até que ponto a prometida perfeição pode ser adquirida, já que se trata apenas da aparência mais visível pelo outro do que por nós mesmos.

A lingua inglesa dispõe da expressão “I read a painting” (eu li uma pintura), mas as línguas latinas são mais condicionadas e separam com mais firmeza os verbos ver e ler. No entanto, a tipografia sempre foi um meio visual por excelência, e é pela subordinação à fonética silábica ou alfabética, que o seu uso se universaliza e impõe. A dimensão visual da tipografia nunca se desvanece, ou se reduz por completo, apesar de subalternizada ao texto. Convém lembrar que a escrita alfabética é relativamente recente, e que muito antes dela existir a civilização já se comunicava através de imagens. Jorge Bacelar, autor de “A Letra: Comunicação e Expressão”, ressalta “que a poesia visual seria a resultante da intersecção entre a poesia e a experimentação visual, podendo igualmente ser vista como o resultado da sobreposição entre a escrita e o desenho, uma vez que toda escrita tem origem no desenho (a escrita poderá ser entendida como um desenho de palavras). Porque é possível pensar simplesmente em imagens, tal como se pode pensar simplesmente em palavras. Portanto, se a escrita e o desenho são meios de comunicação mental, será na mente onde a poesia e o traço primeiro se encontrarão”.
Até o dia 22 de agosto, no
A exposição tenta mostrar como é possível “ler uma pintura”, ou ler um objeto, ou, enfim, ler qualquer “cena artística”. O sentido é que uma obra é autossuficiente e justifica-se pelos seus próprios meios.
É difícil saber se a plataforma da BP que ardeu em fogo no Golfo do México, jogando ao mar milhões de litros de óleo servirá de pólo para julgamentos, condenações, novas regulamentações, etc., mas uma coisa já é certa, ela trará ao mercado um enxame de livros sobre o assunto. Segundo o The New York Times, os editores estão esfregando as mãos e contabilizando as ofertas para ensaios sobre o acidente com a plataforma marítima da Deepwater Horizon. Façam suas ofertas.


