29 jul2010

Instrumentos da literatura criminal

por Kelly de Souza | Cinema, Filmes, Literatura, Tecnologia, livros

Duas “ferramentas” são utilizadas exaustivamente nas narrativas policiais, criminais, jurídicas (os chamados “livros de tribunais”), ou em vários outros gêneros da literatura que envolvam mistério, suspense, em que uma simples comprovação de culpa pode ser o clímax da história. Uma dessas ferramentas, com mais de um século de utilização, é a Impressão Digital, outra é o chamado Polígrafo (Detector de Mentiras). A literatura policial, por exemplo, usou a exaustão (e usa) essas tecnologias para confrontar a verdade, tendo grandes autores se especializado em escrever utilizando esses “instrumentos científicos” para dar clima em seus romances, e não poucas vezes para criar um desfecho inusitado. Com o decorrer do tempo, principalmente a partir da segunda metade do século XX, esses instrumentos deram espaço a outros, como testes de DNA, etc., mais em conformidade com as novas realidades tecnológicas da perícia criminal.

Hoje a chamam de Biometria, mas desde há muito tempo (séculos) ela é só conhecida como “impressão digital”. Quantos dramas reais e ficcionais foram desenvolvidos, quantos roteiros, romances, contos, filmes, crônicas e ensaios foram costurados pelas marcas do polegar da vítima, ou da testemunha, ou mesmo do réu? Mas não foi um policial ou cientista que primeiro a utilizou, mas um magistrado britânico, alocado na Índia, William James Herschel. Foi ele quem introduziu pela primeira vez a impressão digital para identificar funcionários da empresa em que trabalhava. Herschel tornou-se célebre quando, em 28 de julho de 1858, exigiu que Rajyadhar Konai, um homem de negócios nativo, colocasse a impressão de sua mão no verso de um contrato. A ideia inicial era somente causar impacto no negociante, mas Herschel gostou e passou a fazer isso habitualmente, requerendo a impressão da palma da mão, e posteriormente apenas do dedo médio, em todos os contratos. Ele percebeu que não havia duas impressões iguais, e que estas se manteriam inalteradas com o passar dos anos.

Ali começava uma revolução cartorial que mudou a forma de identificar indivíduos, sendo que 30 anos mais tarde a própria polícia incorporou o método nas investigações criminais. Em 1901, o pesquisador inglês Edward Henry criou o departamento de identificação por impressão digital da Scotland Yard. Era a primeira iniciativa de se criar um banco de dados com as impressões dos criminosos, que poderiam ser comparadas com as marcas deixadas nas cenas dos crimes. O mundo da literatura passava a ter uma engenhosa forma de criar suspense, mistério e contraponto. Não à toa, Sherlock Holmes, o irresistível “detetive consultor” de Conan Doyle, utilizava aquela inseparável lupa. Em Sherlock Holmes And The Norwood Mystery (1903) foi a descoberta de uma impressão digital que o ajudou a expor o verdadeiro criminoso e livrar seu cliente da denúncia.

Já o polígrafo, um instrumento que monitora determinadas reações da pessoa, e é capaz de aferir suas alterações cardíacas, pressão arterial, respiração, etc., propõe que essas mudanças fisiológicas podem detectar se o indivíduo está ou não mentindo. O aparelho só funciona quando é acompanhado de um especialista (polygraph examiner) capaz de fazer as perguntas certas, caso contrário nada funciona, afinal, o ato de mentir é mais velho que “andar para frente”, e dificilmente encontraremos alguém que não o faça em determinadas condições. O grande pensador grego Aristóteles (384-322 a.C), por exemplo, só aceitava duas maneiras de mentir: diminuindo ou aumentando uma verdade. Por qualquer lado que se caminhe, para as disciplinas que estudam hoje o comportamento humano, a mentira é aquilo que se gostaria que fosse verdade. Assim, o polígrafo chegou, junto com muita técnica (e cheio de incertezas e erros), para identificar mentirosos, e a literatura conheceu mais um instrumento capaz de tornar mais reais a suas “mentirosas” histórias ficcionais.

Cena do filme "Entrando Numa Fria"

Como toda boa técnica aplicada para confrontar a verdade, tanto a identificação das impressões digitais, quanto o polígrafo, sofreram e sofrem controvérsias de todos os lados. Mas não poucas vezes essas técnicas foram definitivas nas investigações criminais. Timothy James McVeigh foi executado em 2001 (Indiana, EUA) com uma injeção na perna, aos 33 anos. McVeigh e seu amigo Terry Nichols foram condenados (Nichols pegou prisão perpétua) pela explosão da bomba no prédio do governo na cidade de Oklahoma (1995), deixando 168 mortos. No julgamento (1997), houve testemunhas, documentos e muito blá-blá-blá dos advogados, mas segundo os especialistas o que os condenou mesmo foi uma evidência física: duas impressões digitais (uma encontrada em um recipiente contendo a substância utilizada na bomba, e outra deixada na caminhoneta que explodiu em frente ao prédio). Prato cheio para os “CSIs” da TV,  para os romances policiais, e até para as comédias.

Recém-lançado, o livro Será Que Ele Mente Para Você? pode ser um bom exemplo de como pensam os especialistas em polígrafo (e como este pode ser usado para praticamente todas as situações). Seu autor, Dan Crum, é graduado e pós-graduado em Psicologia Forense, com especialização em utilização de detectores de mentiras, tendo trabalhado para a CIA como polygraph examiner e em vários outros órgãos governamentais à caça de suspeitos, terroristas e criminosos, etc. Ele aplica inusitadamente as táticas e técnicas utilizadas na CIA, porém, aqui, nos relacionamentos (e, especialmente ao comportamento masculino). Um verdadeiro tutorial sobre a identificação de mentirosos contumazes (ou não) que podem ser percebidos com ou sem o uso do polígrafo.

Nem sempre a verdade está ao lado desses instrumentos, mas na literatura de ficção, nos livros policiais de suspense, nos dramas de detetives, eles podem ajudar um bocado os autores a inventar verdades.

Kelly de Souza é jornalista colaboradora da Revista da Cultura e Blog da Cultura. Compulsiva por literatura, chocolate e escrita - não necessariamente nessa ordem.

28 jul2010

Um olhar caleidoscópico para os desvios da perfeição

por Kelly de Souza | Artes, Eventos, Fotografia

A artista gaúcha Rochelle Costi, que utiliza fotografia, objetos e instalações em suas obras, nasceu estrábica. A questão que permeou toda sua trajetória se transformou na exposição Desvios – um olhar caleidoscópico, depois que recebeu uma caixa com cerca de 40 casos de estrabismo, com fotos de antes e depois ao tratamento de correção, da amiga e também artista plástica, Lia Menna Barreto. As fotos dispostas em totens, em tamanho de outdoors, lembram o trabalho da célebre fotógrafa americana Diane Arbus, eternizada no filme A Pele, que buscou em pessoas comuns contornos inquietantes de corpos que fogem do conceito da perfeição. Em “Desvios”, somos convidados a pensar além da forma. 

A exposição “Desvios”, que já foi apresentada na I Bienal do Fim do Mundo (Argentina) e na Exposição “Stereovision: from 2D to 3D”, da University of South Florida Contemporary Art Museum (EUA), pode ser vista até o próximo sábado, no Instituto Cervantes, em SP. www.saopaulo.cervantes.es. Abaixo, leia a entrevista exclusiva da artista ao Blog da Cultura.

 

Como surgiu a ideia para a exposição “Desvios”? Recebi pelo correio uma caixa com registros fotográficos de cerca de 40 casos de estrabismo antes e depois do tratamento de correção. Essas fotos faziam parte de um álbum da clínica do pai e do avô de minha amiga e também artista visual Lia Menna Barreto, que generosamente me cedeu o uso. Como sou estrábica e essa questão permeia minha trajetória, às vezes ganho de presente relíquias como essa para usar no trabalho.

Na exposição, o modo de apresentação das fotos (em totens) ganha destaque. Pensando na estética que foge do cânone clássico, do corpo perfeito e harmonioso, como esse conceito se aproxima de sua obra? O ponto de partida foi utilizar um suporte semelhante aos displays publicitários, criando uma ligação direta com a propaganda que promete transformações físicas radicais a partir do uso de produtos ou de procedimentos clínicos. Há um boom de promessas de mudanças estéticas que conduzem ao desejo de adotar um padrão de beleza vigente que é supostamente aceito pela sociedade. O trabalho questiona até que ponto a prometida perfeição pode ser adquirida, já que se trata apenas da aparência mais visível pelo outro do que por nós mesmos.

Seja retratando espaços ou pessoas, o pouco “usual” – como as sobras – sempre teve espaço privilegiado em seu trabalho. Em uma entrevista, durante o lançamento do livro “Sem Título”, você citou que a precariedade te estimula. Como e quando essa precariedade se transforma em “linguagem” na construção artística?  A precariedade me estimula na medida em que ela propõe o aproveitamento máximo de poucos recursos para chegar a uma solução. O que quase sempre resulta em soluções mais inteligentes e menos dispendiosas, essenciais. Outro dia ouvi o Garry Hill falar sobre isso numa palestra. Disse que os projetos que mais gostou de desenvolver em sua larga carreira não são aqueles que envolveram maiores recursos técnicos ou financeiros.

Qual a “conversa” com o espectador “comum” que vê seu trabalho? Penso que um trabalho de arte deva ter várias camadas para sua leitura. O espectador “leigo” tem seus canais de percepção abertos, embora não se considere, é muito mais livre do que o público dito especializado em arte e cultura. Então, voltando à questão anterior, além do pouco “usual” me interessam muito as coisas comuns também. Várias séries que desenvolvi são simples registros de ambientes domésticos e sempre que a identidade dos moradores se manifesta nos arranjos desses espaços há grandes revelações.

Pensando em seu trabalho e na relação com a literatura, o que vem a sua mente? Um trecho de ‘Tu não te moves de ti’, da Hilda Hilst, que li esse ano e acho que tem muito a ver com ‘o mundo das aparências’ do qual estamos falando:

“Porque é verdade, Axelrod, que jamais te vês, o olho do outro te examina e tu apenas refletes o espelho-outro, filmado, fotografado, mas ainda não és tu, não o essencial, o essencial numa profundidade iluminante num oco insuspeitoso”

Kelly de Souza é jornalista colaboradora da Revista da Cultura e Blog da Cultura. Compulsiva por literatura, chocolate e escrita - não necessariamente nessa ordem.

27 jul2010

Náufragos emergentes

por Sérgio Miguez | Ilustração, Literatura, Novidades, livros

É o novo livro de Leusa Araujo, com ilustrações sensíveis do talentoso Ulysses Bôscolo.

O subtítulo diz: seis histórias ordinárias; meio que inocentemente Leusa as chamava de banais durante o processo de criação. Seu editor, Alvaro Machado, comenta: “Apaixonada pela literatura e pela história recente do país, na esteira de Nelson Rodrigues, Dalton Trevisan [...] extraordinários observadores da psiquê urbana, a autora é, quase sempre, cúmplice irrestrita de seus personagens [...].

Mas, é a própria escritora quem melhor explica suas intenções ao falar das vozes que traz para ouvirmos durante essa leitura pra lá de boa, acompanhe:

Imagem de Amostra do You Tube

Sérgio Miguez é editor-Chefe da Revista da Cultura. Jurado do prêmio APCA de Literatura 2010, jornalista, agitador cultural, curador, livreiro de 1984 a 2002 (livrarias Belas Artes e Futuro Infinito).

27 jul2010

Favelas de Janice Perlman, antes e depois

por Kelly de Souza | Comportamento, História, Literatura, Pesquisa, Política, Sociologia, livros

É provável que o primeiro escritor brasileiro a escrever a palavra “favela” tenha sido Euclides da Cunha, em sua obra máxima Os Sertões, onde narra a epopeia da Guerra de Canudos (“Todas traçam, afinal, elíptica curva, fechada ao sul por um morro, o da Favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos…”). A descrição botânica do termo também está no livro (“As favelas, anônimas ainda na ciência – ignoradas dos sábios, conhecidas demais dos tabaréus – talvez um futuro gênero cauterium das leguminosas, têm, nas folhas de células alongadas em vilosidades, notáveis aprestos de condensação, absorção e defesa”), mas a palavra assumiu ao longo dos anos outros significados, como explicado por Márcio José Lauria, professor, escritor, crítico literário e autor de Tratador de Palavras. Segundo ele, o vocábulo “favela” percorreu uma trajetória que foi da designação de arbustos e árvores da caatinga, passando pelo epônimo de um morro situado nas proximidades de Canudos, Bahia, e também denominando um morro na cidade do Rio de Janeiro (Morro da Favela), até chegar ao seu sentido depreciativo, que evidencia um tipo socioeconômico de habitação popular conectado à marginalidade. Estigmatizá-las faz parte da cesta de falências da pequena e alta burguesia nacional. Obviamente o grande Euclides morreu antes de ver o termo atrelado a um significado pejorativo. Melhor assim, menos duro para ele e mais dramático para nós, que temos ainda de conviver com esse preconceito.

Lançado este ano nos EUA, o livro FAVELA: Four Decades of Living on the Edge in Rio de Janeiro, da antropóloga Janice Perlman, é um retrato bastante claro de como nós, público em geral, algumas vezes somos mais mal informados (ou fingimos ser) sobre as coisas do Brasil do que uma pesquisadora internacional. Claro que não se trata de uma pesquisadora qualquer, mas de alguém que não só conhece muito o Brasil de hoje, como o da década de 60. Perlman é professora do Departamento de Cidades e Planejamento Urbano da Universidade da Califórnia (Berkeley), sendo também diretora executiva de Planejamento Estratégico da New York City Partnership. Atua também como diretora de Ciência, Tecnologia e Políticas Públicas da New York Academy of Sciences, além de ser fundadora e principal executiva da organização não governamental Mega-Cities Project, e, consultora sênior do Banco Mundial na área de projetos urbanos. Além de tudo, ela é autora da obra O Mito da Marginalidade – Favelas e Política no Rio de Janeiro, publicada aqui em 1981 (nos EUA em 1976), um magnífico estudo realizado na década de 60 e 70 que até hoje é referência para teses, outros livros, estudos, assim como para o desenvolvimento de políticas públicas, aqui e fora do Brasil.

Para “O Mito da Marginalidade”, Janice Perlman desenvolveu sua pesquisa (1968 – 1969) em uma área residencial rica (Catacumba – Zona Sul), também na periferia industrial (Nova Brasília – Zona Norte) e na cidade de Duque de Caxias (Baixada Fluminense). Na época foram entrevistadas lideranças comunitárias e moradores de favelas (ou não) selecionados aleatoriamente (homens e mulheres entre 16 e 65 anos de idade). A obra desmistificou as pressuposições de que os moradores das favelas eram elementos marginais” e que representavam uma ameaça à estabilidade política. Um “susto amarelo” para muitos pesquisadores e políticos do Brasil daquela época. A pesquisa também concluiu que essas pressuposições eram princípios empiricamente falsos e que suas implicações nas políticas públicas eram extremamente prejudiciais. O livro foi publicado em várias línguas e recebeu em 1976 o Prêmio C. Wright Mills, uma das mais importantes honrarias nos EUA para trabalhos que envolvam Estudo de Problemas Sociais. Um bilhão de pessoas no mundo (metade de todos os moradores das cidades em desenvolvimento) vive em assentamentos precários, sendo as favelas do Rio de Janeiro, e de várias outras cidades do país, um exemplo desse tipo de comunidade.

Passados mais de 30 anos, Perlman voltou ao Rio de Janeiro e visitou as favelas tentando “seguir os passos” dos participantes originais de sua pesquisa, no sentido de entender como tinham se saído. O livro “FAVELA: Four Decades” é o resultado desse retorno, desse reencontro com as novas realidades desses moradores do Rio de Janeiro. Ela conseguiu encontrar perto de 40% do grupo-alvo do estudo original, e iniciou outra pesquisa identificando porque alguns tinham continuado pobres, enquanto outros tinham conseguido ascender na escala social. Os resultados não foram menos surpreendentes. Mais da metade do grupo original havia se mudado da favela, sugerindo que estas não são o “beco sem saída” que muitas pessoas supõem.

Mas também havia más notícias. Perlman saiu da década de 60 e veio para os dias atuais, onde entrevistou favelados, refavelados, filhos, netos, que lutam por uma vida melhor, sendo seu objetivo atualizar seu trabalho anterior. Nessa nova jornada ela descobriu que apesar das mudanças ocorridas nessas três décadas (aumento nos níveis de ensino, democratização, melhores condições materiais, etc.), muitos moradores sentem-se marginalizados (aqui não no sentido criminal, mas social), mais do que antes, mais do que nunca. A maior mudança, claro, foi a explosão do comércio de drogas e armas, que turbinou a violência (quase 1 em cada 5 pessoas relataram que um membro da sua família foi vítima de homicídio). Segundo seu trabalho, o maior desafio, no entanto, é a criação de emprego, isto é, um trabalho decente com remuneração decente. Sem isso as condições só tendem a piorar (quase 70% dos entrevistados apontam que um bom trabalho e um bom salário são primordiais para se ter uma vida bem-sucedida, mesmo na favela). Perlman completa: “não há nada mais importante que isso, nem casa própria, nem família, nem educação. Eles querem ter a chance de subir. Eles não pensam somente no dinheiro (9% falaram que precisavam de dinheiro), querem ter a dignidade de trabalhar e saber que seu trabalho é valorizado no Brasil”.

A pergunta que fica: a segunda pesquisa de Perlman (o livro foi prefaciado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso) será mais um trabalho de prateleira, de academia, de roda de sociólogos, de comitês partidários, de conferências e citações bibliográficas, ou será algo mais do que isso, algo mais do que foi o primeiro estudo? Estamos avançando? Podemos ter esperança de que no futuro a melhor divisão de renda, o combate a criminalidade e profundas transformações educacionais minimizem o atual cenário?  Favelas podem voltar um dia a serem só… folhas de células alongadas, notáveis aprestos de condensação, absorção e defesa…?

 

Kelly de Souza é jornalista colaboradora da Revista da Cultura e Blog da Cultura. Compulsiva por literatura, chocolate e escrita - não necessariamente nessa ordem.

27 jul2010

Deixe o grande mundo girar, Colum McCann

por anarocha | Literatura, Resenha

Mais um ganhador de prêmios. Eu queria ser uma daquelas pessoas que pega um livro aleatoriamente, sem saber nada do autor nem da história em leva o livro pra casa. As vezes que eu fiz isso, provavelmente porque gostei da capa, eu me ferrei. Então, como uma pessoa programada e precavida, prefiro apostar em alguma coisa da qual já ouvi falar.

Mas uma coisa que eu não faço é já saber detalhes da história ao comprar o livro. Para mim atrapalha. Eu gosto de saber o contexto, o clima. A imaginação é a ferramenta mais importante da leitura pra mim. Nem pensar ver filme antes de ter lido o livro! Se eu assistir o filme nunca mais toco no livro…..

Não sei se todos conhecem a história, ou se alguns acham que é lenda, mas o fato é que em agosto de 1974 um francês, Phillipe Petit,  se atreveu a esticar uma corda-bamba entre as torres gêmeas do World Trade Center, ainda não muito habitadas, e ficar nada menos do que 50 atravessando e “bailando” de um lado para o outro. Esse ato foi tema de documentário,  Man on Wire, também ganhador de prêmio, e me fez cair de amores pelo personagem.

Essa matéria da CBS do dia do episódio relata exatamente como o fato foi tratado pela cidade, e retrata também o nosso ponto central do livro em questão.

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O livro não trata propriamente da vida do equilibrista, mas ele certamente é um dos personagens que ilustra a NY daquela década. Soldados não voltando do Vietnã, famílias desoladas tendo que refazer seus caminhos. Os subúrbios da cidade e a falta de esperança no futuro. A dor que une a todos e possibilita novos caminhos. E o equilibrista arriscando a própria vida só para poder cruzar as maiores torres do mundo. Histórias que a princípio não tem nenhuma conexão, acabam se revelando parte de uma mesma esfervencente NY.

Deixe o grande mundo girar, Record (R$ 52,90, 378 pg) 

anarocha é carioca, trabalha da editora Zahar e é fissurada por livros.

26 jul2010

Desafios de ler uma imagem e imaginar uma leitura

por Kelly de Souza | Artes, Eventos, Literatura

A lingua inglesa dispõe da expressão “I read a painting” (eu li uma pintura), mas as línguas latinas são mais condicionadas e separam com mais firmeza os verbos ver e ler. No entanto, a tipografia sempre foi um meio visual por excelência, e é pela subordinação à fonética silábica ou alfabética, que o seu uso se universaliza e impõe. A dimensão visual da tipografia nunca se desvanece, ou se reduz por completo, apesar de subalternizada ao texto. Convém lembrar que a escrita alfabética é relativamente recente, e que muito antes dela existir a civilização já se comunicava através de imagens. Jorge Bacelar, autor de “A Letra: Comunicação e Expressão”, ressalta “que a poesia visual seria a resultante da intersecção entre a poesia e a experimentação visual, podendo igualmente ser vista como o resultado da sobreposição entre a escrita e o desenho, uma vez que toda escrita tem origem no desenho (a escrita poderá ser entendida como um desenho de palavras). Porque é possível pensar simplesmente em imagens, tal como se pode pensar simplesmente em palavras. Portanto, se a escrita e o desenho são meios de comunicação mental, será na mente onde a poesia e o traço primeiro se encontrarão”.

O Letrismo, criado pelo romeno Isidore Isou na década de 40, visava trazer a poesia de volta ao universo. Bateu de frente com o exacerbado controle sobre o Surrealismo, praticado, por exemplo, por André Breton. O conceito Letrista se agigantou, ganhou músculos, adeptos, e o movimento acabou migrando também para as artes visuais, no qual obras experimentais com letras e pinturas se fundiam, criando uma estética singular de rara beleza. Isou proclamava a destruição de uma poesia de palavras em detrimento de uma estética baseada na letra e nos signos. O Movimento Letrista desdobrou-se em várias correntes, como a hipergrafia (1950), o ultraletrismo (1953), a arte infinitesimal (1956), arte supertemporal (1960) e o excoordismo (1992), e a sua ação estendeu-se a uma grande variedade de formas de criação artística.

Até o dia 22 de agosto, no Museu de Arte Moderna Coleção Berardo, em Lisboa, é possível apreciar a exposição “Algumas Obras a ler”.  Trata-se de uma viagem pelos trabalhos de Isou, concebida como se fosse uma conversa, um diálogo em que o romeno apareceria (para um primeiro encontro), acompanhado de sua pasta (serviette-matrice), em que abre e retira livros que lhe dizem respeito, forçando o interlocutor a lê-los antes de iniciar qualquer conversa. Várias das peças apresentadas na exposição funcionam como uma paródia, uma ironia, e elas vão do letrismo de Isou, passando pelas pesquisas do grupo Art & Language (movimento conceitual criado no Reino Unido na década de 60), chegando a outros artistas como por Joseph Kosuth. São “pinturas descritas” (peintures dépeintes), monosignos (monosignes) e outros elementos que compõe uma vasta “biblioteca” visual, que recusa a separação das artes em gêneros distintos.

O Movimento Letrista (que no Brasil tem a pintora Niobe Xandó como um de seus expoentes) propunha-se considerar a letra como o único material possível para uma poesia diferente (une poésie autre), fundada na beleza melódica das combinações alfabéticas. A Exposição “Algumas Obras a ler” imagina um visitante dentro de um museu, seguindo o percurso da visita, observando cada obra, uma após a outra. Pouco a pouco, o olhar se enfraquece, se fragiliza e a atenção começa a falhar. Será necessário então adotar outro comportamento, algo como vaguear pela exposição meio sem rumo, meio sem sentido até ser verdadeiramente arrebatado por uma obra. Será a obra que escolherá o visitante, e não o contrário. Além das obras de Isou, a exposição mostra também trabalhos de Gil J. Wolman, Victor Burgin, Braco Dimitrijevic, Kosuth, dentre outros.

A exposição tenta mostrar como é possível “ler uma pintura”, ou ler um objeto, ou, enfim, ler qualquer “cena artística”. O sentido é que uma obra é autossuficiente e justifica-se pelos seus próprios meios. Marcel Duchamp (1887-1968), pintor e escultor francês (naturalizado americano em 1955), considerado o percussor da chamada Arte Conceitual, deixou importantes legados no campo das experimentações artísticas. Criou o conceito de “readymade”, que designa objetos (um ou mais artigos do uso cotidiano), normalmente produzidos em escala industrial, selecionados sem critérios estéticos e expostos como obras de arte em museus e galerias. Seu primeiro readymade, de 1912, foi uma roda de bicicleta montada sobre um banquinho (Bicycle Wheel). Independente do gosto e de nossas sensações individuais sobre Arte, está claro que Duchamp – com seus readymades – abriu uma generosa porta a muitas outras afirmações artísticas que se seguiram ao seu trabalho. Um desses movimentos sem dúvida foi o Letrismo (ou dos Letristas, ou Letrismo Hipergráfico), fundado pelo romeno Isidore Isou (1925-2007), e que teve o francês Gabriel Pomerand (1925-1972) como um dos seus seguidores.

Muitos artistas levaram esse mix artístico ao extremo, propondo novos movimentos, novas ideias, novas formas de se obter sentido usando a palavra, o design da palavra, invocando a imagem da palavra para estabelecer ligações abstratas e sedutoras com nossa imaginação. Eles incorporaram em suas criações à escrita pictográfica, ideográfica, caligráfica ou tipográfica, reinventando-as e simultaneamente lhes atribuindo novas funções. A exposição “Algumas Obras a ler” é como um livro, onde cada obra é uma página. Não é uma exposição para se contemplar as obras, mas para lê-las.

*A primeira obra é de Guillaume Apollinaire, a segunda de Isidore Isou, e a terceira de Ana Hatherly

Kelly de Souza é jornalista colaboradora da Revista da Cultura e Blog da Cultura. Compulsiva por literatura, chocolate e escrita - não necessariamente nessa ordem.

23 jul2010

Desastre no Golfo e a corrida dos editores

por Kelly de Souza | Literatura, Meio Ambiente, Mercado, livros

É difícil saber se a plataforma da BP que ardeu em fogo no Golfo do México, jogando ao mar milhões de litros de óleo servirá de pólo para julgamentos, condenações, novas regulamentações, etc., mas uma coisa já é certa, ela trará ao mercado um enxame de livros sobre o assunto. Segundo o The New York Times, os editores estão esfregando as mãos e contabilizando as ofertas para ensaios sobre o acidente com a plataforma marítima da Deepwater Horizon. Façam suas ofertas.

Carl Safina, oceanógrafo e autor de vários livros (Eye of the Albatross, Voyage of the Turtle, etc.) foi contratado pela Crown (Random House) para escrever sobre o vazamento e as suas consequências ambientais. Loren Steffy, colunista de negócios do The Houston Chronicle, vendeu em julho para a McGraw-Hill os direitos de sua versão dos acontecimentos, onde pretende relatar como o desastre no Golfo é apenas parte de um padrão maior que visa cortar custos, comprometendo com isso a segurança das operações. Também em julho, o editor executivo da HarperCollins anunciou a publicação de uma obra com um “relato definitivo” sobre a explosão que ocorreu na Deepwater Horizon, com titulo provisório de “Fire on the Horizon”. Já Stephen S. Power, editor da Wiley, procurou Antonia Juhasz, autor de A Tirania do Petróleo, para encomendar um trabalho sobre o lado humano do desastre (11 mortos e milhares de prejudicados que habitam as enseadas do Golfo).

Segundo o The New York Times, Michael Flamini, executivo da St. Martin’s Press, foi um dos primeiros editores a assinar contrato com um autor para investigar o tema. Em maio, ele leu a proposta de Mike Magner, um jornalista investigativo de Washington, que já passou três anos trabalhando em um livro sobre a BP.  Magner atualizou seu manuscrito, que já estava quase acabado, para incluir material sobre o desastre. Comenta-se que a proposta pelo livro é de seis dígitos! Trata-se, enfim de uma corrida louca para chegar ao mercado o mais cedo possível. A OR Books, que publicou o livro de ensaios de Sarah Palin (Going Rouge), está correndo para produzir o que poderia ser o primeiro livro sobre o desastre “Deepwater Horizon: The Oil Disaster, Its Aftermath and Our Future”, de Peter Lehner (diretor executivo do Natural Resources Defense Council) e Bob Deans (autor de River Where America Began). O livro está sendo esperado para setembro.

Certamente que vários livros vão aparecer nos próximos meses contando os “bastidores” de um dos maiores desastres naturais da história dos EUA. Fora os romances, crônicas e livros didáticos que vão ser desenvolvidos nos próximos anos. Desastre para uns, oportunidade para outros. Nada de novo, só mais um exemplo do equilíbrio da natureza.

Kelly de Souza é jornalista colaboradora da Revista da Cultura e Blog da Cultura. Compulsiva por literatura, chocolate e escrita - não necessariamente nessa ordem.

23 jul2010

I Am Number Four

por Clariana Zanutto | Cinema, Literatura, Novidades, Variedades

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O livro I Am Number Four chega às prateleiras americanas apenas dia 4 de agosto, mas já está dando muito que falar. Apontado como o novo Crepúsculo, a história de Pittacus Lore (pseudônimo dos autores James Frey e Jobie Hughes) retrata um grupo de nove jovens alienígenas e seus guardiões que fugiram de seu planeta natal, Lorien, pouco antes de ser destruído pelos Mogadore, uma espécie inimiga, que os persegue até a Terra.

Três guardiões são mortos, e o protagonista – o lorien número 4 – adota o nome de John Smith e se esconde entre os humanos em Paradise, localizado no Estado de Ohio, EUA.

John tem 15 anos e tenta se adaptar à escola na Terra e aos insistentes ataques da raça alienígena rival que destruíram Lorien para roubar suas fontes de riqueza naturais, já que o planeta Mogadore necessita das mesmas para sobreviver.

Ao completarem 15 anos, os adolescentes de Lorien desenvolvem seu “Legado”, uma espécie de poder especial que conquistam assim que atingem a puberdade.

A ficção-científica já está sendo adaptada para as telonas pela DreamWorks. O diretor D.J. Caruso (Controle Absoluto, Paranóia) substitui Michael Bay na direção do filme, que estava ligado às filmagens, teve que abandonar para dirigir o terceiro Transformers, mas continua na produção ao lado de Steven Spielberg.

Alex Pettyfer viverá o protagonista, e a atriz Dianna Agron, que faz o papel da líder de torcida grávida no seriado Glee, será sua namorada. O elenco também inclui Timothy Olyphant, Teresa Palmer, Kevin Durand, Callan McAuliffe e Jake Abel. O filme deverá ser lançado dia 18 de Fevereiro de 2011.

A Livraria Cultura disponibilizará o livro a partir do mês de agosto.

Clariana Zanutto Assistente de redação da Revista da Cultura, apaixonada por música, cinema, fotografia e esmaltes coloridos.

23 jul2010

Violoncelo Aleijadinho

por Clariana Zanutto | Eventos, Literatura, Música, Música Clássica, Revista da Cultura, livros

No último dia 12, Márcia Glogowski lançou o livro Aleijadinho em noite de autógrafos na loja de artes da Livraria Cultura. O evento também contou com a presença do violoncelista Antonio Meneses, nosso próximo entrevistado da Revista da Cultura.

A obra conta a história de como o violoncelo Aleijadinho foi concebido e como o instrumento pode disseminar a educação musical e contribuir para a cultura de nosso país.

Imagem de Amostra do You Tube

Clariana Zanutto Assistente de redação da Revista da Cultura, apaixonada por música, cinema, fotografia e esmaltes coloridos.

23 jul2010

Prêmio São Paulo de Literatura 2010

por Clariana Zanutto | Eventos, Literatura, Prêmio São Paulo de Literatura

Imagem de Amostra do You TubeEncerrando a série de encontros “Conversa com os autores”, do Prêmio São Paulo de Literatura 2010 na Livraria Cultura, o evento recebeu, nessa segunda-feira, os autores Luiz Ruffato, que apresentou seu livro Estive em Lisboa e lembrei de você, e Paulo Rodrigues, cuja obra participante do prêmio é As vozes do sótão.

A mediação da palestra foi feita por Mona Dorf. Os convidados leram um trecho de seus livros, comentaram sobre o processo de criação de cada obra e falaram um pouco sobre si mesmos.

O resultado final será divulgado dia 2 de agosto, em cerimônia no Museu da Lingua Portuguesa.

Clariana Zanutto Assistente de redação da Revista da Cultura, apaixonada por música, cinema, fotografia e esmaltes coloridos.