09/02/2010   RSS posts: 942comentários: 2.069 updaters: 554
Bem-vindo(a) ao Blog da Cultura. Av. Paulista, 2073, Conjunto Nacional - Tel.: (11) 3170-4033 / contato@livrariacultura.com.br

Chagall e a bilheteria

1Domingo fui saborear Chagall, no MASP. Chego às 11h em ponto (hora que o museu abre) e encontro fila para comprar ingresso. Normal, quem gosta de museu, ainda mais no Brasil, tem que ser tolerante. Meia hora depois continuava na fila. Domingo, fluxo crescente de interessados (amém!), e uma única bilheteria funcionando. Um solitário bilheteiro tentava dar conta daquela centena de “ousados”.

Imagino o trabalho e a dimensão logística para trazer ao Brasil “O Mundo Mágico de Marc Chagall - Gravuras“, uma mostra já apresentada em BH e Rio. Olhei para trás e a fila já chegava na esquina. 11h40 e, finalmente, abre outra bilheteria (“só para quem vai pagar em dinheiro!” – gritou o “novo” bilheteiro).

Me pergunto se o mais importante museu da América Latina só tem uma máquina para cartões? Finalmente compro o ingresso, na fila do “dinheiro vivo”. Já escutava “o próximo!”, quando reclamo onde está o libreto da Exposição. O bilheteiro acena para a fila ao lado (dos usuários de cartão – quilométrica) e sapeca um: “senhora, pode pegar aqui ao lado”. Diante de minha fúria educada, embora incisiva, ele esticou o braço, pegou um Programa ao lado, e me entregou, não sem antes entregar junto um olhar de chateação.

chagall-deus-entrega-lei-moises-detalhe2Diante de Marc Chagall esqueci tudo. A exposição no MASP mostra séries emblemáticas de gravuras – uma das formas de expressão preferidas de Chagall – entre elas, as integrais de “La Bible” (105 gravuras) e “Daphnis et Chloé”, sendo essa a coleção de 42 gravuras (guaches), fruto de duas viagens de Chagall à Grécia, entre 1953 e 1954. Outro destaque da mostra é a série “Les Fables de La Fontaine”, com 23 gravuras produzidas entre 1926 e 1927, sendo que a produção original contava com 100 peças. Os guaches das fábulas de La Fontaine foram expostos em 1930 em Paris, Bruxelas e Berlim e, comercializadas, acabaram se dispersando pelo mercado, tornando praticamente impossível a reunião integral da série.

Nascido de família judia na Bielo-Rússia, em 1887, e morto em 1985 no sul da França, esse pintor, gravador e vitralista foi um dos maiores mestres do século XX. Artista criativo, introspectivo, colorista, Chagall desenvolveu além da pintura trabalhos em cenografia, vitrais, mosaicos, cerâmicas, esculturas, criando seu mundo pictórico pessoal quase desligado das vanguardas de seu tempo. Em sua obra cabe de tudo um pouco, cubismo, surrealismo, simbologia judaica e variedades cromáticas. Em 1937, o artista naturaliza-se francês, um privilégio logo revogado quando estoura a Segunda Guerra Mundial e a França, derrotada pela Alemanha, fica dividida. Lento em identificar o perigo de sua posição como judeu (e artista), Chagall foi condenado pelos nazistas como “degenerado”. Foi preso em abril de 1941, mas libertado graças à intervenção norte-americana, partindo novamente para o exílio. Teve uma vida hiper produtiva em 97 anos de existência, deixando uma obra extensa e estupenda.

chagall3Desço para ir embora e noto a mesma fila e… os mesmos dois bilheteiros. Curadores movem “mundos e fundos” para trazer uma importante mostra desse artista ao país, mas sabe lá por qual razão economiza-se no acesso à bilheteria. Passei perto de 2h nessa jóia que é o MASP, mas, um quarto do tempo fiquei na fila para comprar ingresso. Aceito ficar enfileirada, sem desgaste, para subir os elevadores do museu, para passar pelo detector de metais (justo), e aceito a fila até pelo acúmulo de visitantes dentro dele. Mas fila para comprar ingresso é descabido. Quem puder, não deve perder a oportunidade de ver as obras de um dos mais importantes gênios artísticos do século passado. Apesar da bilheteria.

* As gravuras integram a mostra em exposição. De cima para baixo: (1) Da série “Dafne e Cloé”; (2) Da série “A Bíblia”; (3) Da série “Fábulas de La Fontaine”.

Bei Bei & Shawn Lee

[via UoD]

YouTube Preview Image

Nossa, viciei nesse som! A chinesa Bei Bei toca um instrumento de cordas chinês de 2.000 anos chamado “guzheng” (vou aguardar explicações do Buja em vez de falar besteira, ok?). Definem esse som no site da gravadora como Asian-fusion, com ela remetendo ao hipnótico “spiritual jazz” da pianista Alice Coltrane e à harpa afro de Dorothy Ashby. Ao Shawn Lee (o cabeça de jaguar) cabem os toques hip-hop, electric jazz e soul.

Ouçam mais amostras do CD “Into the Wind” aqui.

A superhiperdica foi do Dida Louvise. Tks, Dida!

O filho eterno

o-filho-eterno

No livro O filho eterno, Cristóvão Tezza, ganhador dos Prêmios Portugal Telecom, Bravo! Prime, Jabuti, APCA e São Paulo de Literatura, utiliza frequentemente a frase “nada do que não foi poderia ter sido”. O narrador desse romance-autobiográfico refere-se à inutilidade da vontade perante situações concretas, sobrando ao individuo a necessidade de se conformar com o inexorável destino. Pessimismo? O narrador parece mais realista a porta-voz do sentido trágico da vida.

Em entrevista à Revista da Cultura, edição 24, Tezza disse que, ao ler trechos de O filho eterno, “sente algumas pontadas de estranheza, de uma espécie de duplo.” A sinceridade com que foi produzido o livro talvez explique sua afirmação. A obra narra a trajetória de um pai que se vê com um filho portador da Síndrome de Down, apontando todos os sofrimentos, sensações e decepções do narrador que foi imbuído pelo “destino” a cuidar de uma criança deficiente.

As frustrações desse pai são expostas em sua totalidade. Por esse motivo, em certos momentos do livro, a narrativa soa preconceituosa, despertando no leitor uma inquietação, como se aquilo que lê fosse proibido dizer. Por revelar sem receios o que todos se esforçam para esconder, O filho eterno torna-se mais um romance contemporâneo que merece ser lido.

Malu Mader fala de sua experiência como diretora

malu-maderO que forma um cineasta? Uns apostam na técnica, alguns, na vocação, outros, na experiência humana. Habituada a estar em frente às câmeras, com mais de 25 anos de atuação, Malu Mader inverteu os papéis e estreou, em 2008, Contratempo, seu primeiro filme como diretora, em parceria com Mini Kerti. A atriz, que não passou ilesa à pergunta, não titubeou em responder: “O que influencia meu trabalho de cineasta é a vida”. Ou, em outras palavras, o olhar que se tem sobre ela. “Não é só questão de técnica, recursos ou tema, e sim de forma. Se você tiver um olhar original, inteligente, amoroso ou, quem sabe, genial, vai fazer a diferença”, explicou Malu na edição desse mês da Revista da Cultura (leia matéria completa aqui), além de apresentar seus filmes e diretores preferidos.

Abaixo, ouça um trecho da entrevista de Malu Mader ao Blog da Cultura.

Filme nacional ainda encontra dificuldade de exibição

lirio-ferreira21O “duelo” entre tradição e modernidade é uma questão frequente nos filmes de Lírio Ferreira. Além de “O homem que engarrafava nuvens”, que estreou recentemente nos cinemas (leia matéria completa na Revista da Cultura deste mês), o cineasta também dirigiu Árido Movie, Cartola e Baile Perfumado. Não importa a temática, todos trazem uma espécie de diálogo entre passado e presente. Lírio justifica: “o cinema brasileiro é a cara do Brasil, retratando as contradições entre tradição e modernidade e todo o seu paradoxo”. Esse não é o único paradoxo que preocupa o cineasta. A exibição dos filmes nacionais, que difere da produção “blockbuster”, é a principal dificuldade (e desafio) para quem faz cinema atualmente no Brasil.

Com pouco mais de duas mil salas no país, as produções nacionais disputam espaço com as americanas (a exemplo de Avatar) que podem “ocupar” 600, 700 salas para um único filme. O restante é disputado entre outras produções internacionais e os filmes brasileiros, que geralmente ficam sem espaço. “É uma concorrência desleal e imoral. Como se inventassem um carro que custasse R$ 200,00 e soltassem 2 milhões deles aqui em São Paulo. Não vai ter rua para estes carros”, explica Lírio, que defende uma cobrança diferenciada quando se trata de um grande número de cópias.

A questão é tão preocupante que o presidente Lula assinou, no último 30 de dezembro, o decreto 7.061/2009 que estabelece a cota mínima de dois filmes brasileiros diferentes e 28 dias de exibição nos complexos comerciais de cinema em 2010. O objetivo é promover a auto-sustentabilidade da indústria e o aumento da produção cinematográfica brasileira. Para o diretor da Ancine, Mário Diamante, a cota de tela é sem dúvida a principal ferramenta para ajudar na expansão do cinema brasileiro. “De certa forma, o que está sendo feito hoje é o que os estúdios norte-americanos fazem, por isso que eles já planejam com longo prazo o lançamento dos seus filmes”, disse à Agência Brasil.

Em entrevista ao Blog da Cultura, o diretor Lírio Ferreira explicou a questão.

Ed Motta lança “Piquenique”, seu décimo álbum

edmotta-fotodaryandorellesNarrativas de quadrinhos, humor, cinema noir e amor. É com essa combinação que o cantor, compositor e multi-instrumentista Ed Motta lança Piquenique, seu décimo álbum de carreira. Transitar pelos diversos estilos musicais não é novidade para o músico que, além do pop, traz na bagagem composições instrumentais, trilha para cinema e teatro, entre outras. O álbum traz outra novidade: a estreia da esposa, Edna Lopes, na composição de onze das doze letras de Piquenique. Ela é casada com o músico há quase 20 anos e assina desde 92 o projeto gráfico dos CDs e cenários dos shows de Motta. Na edição deste mês da Revista da Cultura, Ed Motta fala do novo trabalho e aponta discos que se tornaram referência para o seu trabalho. (leia matéria completa aqui).

Abaixo, ouça um trecho da entrevista em que fala do novo álbum (o mais pop de sua carreira) e da parceria com a esposa Edna Lopes.

O homem que engarrafava nuvens

caricatura-humberto-teixeiraNa mansão Mandalai, construída nos arredores do bairro de São Conrado (RJ) – perto das montanhas, da floresta e da Pedra da Gávea –, as nuvens ficam tão baixas que é possível tocá-las. Lá, uma menina viu o pai repetir dezenas de vezes, quando questionado se havia abandonado a vida pública, que continuava compondo, mas “o que gostava mesmo era de ficar ali com a filha, engarrafando nuvens”.

Foi no rastro dessas nuvens que a atriz Denise Dummont iniciou sua jornada em busca da história desse homem e de toda uma época marcada pelo ritmo contagiante das sanfonas. O resultado dessa odisseia pode ser visto no documentário “O homem que engarrafava nuvens”, de Lírio Ferreira, que estreou nos cinemas em circuito nacional e que conta a história do baião por meio da vida e obra do compositor cearense Humberto Teixeira, autor de clássicos como “Asa branca” e “Adeus, Maria Fulô”. Para Denise, ele era apenas “papai”; para o mundo musical, o “doutor” do baião.

Na Revista da Cultura deste mês, Denise fala sobre o processo de quase uma década para a realização do documentário (leia a matéria completa sobre o filme aqui), que contou com inúmeros depoimentos de artistas nacionais e internacionais, como David Byrne, da banda Talking Heads. Abaixo, confira a entrevista exclusiva ao Blog da Cultura, em que conta um pouco mais da relação com seu pai, Humberto Teixeira.

Você inicia o documentário dizendo que essa jornada, além de mostrar a história do Baião através do compositor Humberto Teixeira, também tinha o objetivo de descobrir um pouco mais sobre seu pai. A imagem que você tinha mudou depois do filme? Mudou, ficou mais abrangente porque houve muita pesquisa. Não acredito que na vida a gente descubra integralmente quem é alguém, mas, descobri muitas coisas e fiquei feliz com as descobertas porque ele era um cara legal, um homem de bem. Podia ter descoberto coisas horríveis, mas não. Então, foi muito bom nesse sentido.

O que mudou em sua visão? Não tinha noção da real importância de sua obra na poesia, na música, e da influência que teve como deputado federal, escrevendo leis que protegiam os artistas, autores, entre outras coisas. Além disso, criou caravanas e levou os artistas e nossa música para o resto do mundo. Ele trabalhava em várias frentes e isso foi muito bacana descobrir. Me sinto feliz porque parti nessa viagem de descoberta e sai satisfeita. Em relação à vida pessoal, não foi um filme de exaltação, e sim de pesquisa. O filme quem dirigiu foi o Lírio [Ferreira] e em nenhum momento eu disse que se ele descobrisse alguma miséria não poderia colocar porque é meu pai. Não descobrimos nada além dele ser um machão nordestino. E, com isso, consigo conviver numa boa.

Continue lendo: More »

Palco dizima a falácia do inacessível literário

pauloscottA busca do contato entre leitores e autores tem longa tradição. Os festivais que transformam a literatura em espetáculo, outrora realizados por meio de saraus literários, ganham novos contornos e a exposição da literatura no palco tem se tornado solução natural no contexto das novas tecnologias e da busca de novas linguagens. No Brasil, onde a oralidade tem forte apelo, essas iniciativas têm conseguido desmitificar a velha imagem da literatura como espaço exclusivo de alguns poucos privilegiados, dos eruditos, dos iluminados – como explica o escritor Paulo Scott (Ainda orangotangos, Voláteis), criador dos projetos PóQUET: Escritores que Tocam, Músicos que Escrevem; Vocabulário (com Chacal, Marcelino Freire e Marcelo Montenegro), entre outros.

Na Revista da Cultura deste mês, Scott (www.pauloscott.wordpress.com) revela os livros (leia aqui) com os quais dialogará em seu próximo trabalho. Abaixo, confira a entrevista exclusiva ao Blog da Cultura, em que conta que levar ao palco o texto literário, em conjunto com o teatro, a dança e a música, dizima a falácia do inacessível literário.
.

A busca do contato com autores tem longa tradição, e vem desde os fechados saraus literários. Hoje, essa experiência vem se tornando comum e traz à tona – mais uma vez – a busca pela oralidade. Você, ao lado de outros como André Sant’Anna, Chacal, Marcelino Freire, é um dos autores contemporâneos que mais tem incentivado a “literatura nos palcos”. É possível que essa experiência (de unir autores e público) se amplie para uma massa maior de leitores? Essa possibilidade existe, mas não é necessariamente uma condição; há outros caminhos que podem ampliar o espectro de leitores – e podem fazê-lo até com mais eficácia. Ocorre que num país como o nosso, onde a oralidade tem um apelo tão forte, funcionando como verdadeiro catalisador no câmbio entre tantas e diversas culturas sociais, iniciativas como essas conseguem, de maneira rápida e honesta (arrisco o adjetivo), desmistificar a velha imagem da literatura como espaço exclusivo de alguns privilegiados, dos eruditos, dos iluminados. Como venho de classe social baixa, essa distância sempre me incomodou. Tenho certeza de que a lacuna se resolverá pela educação escolar de qualidade; mas enquanto isso não se verificar, sinceramente, não vejo motivo para o escritor omitir-se. Observe que não falo de militância pura e simples, mas da vontade de contribuir para que se desfaça, para todos e o mais rápido possível, uma e outra falácia em torno do inacessível literário.

Penso que, muito além do culto à oralidade, nos meus projetos, ganha relevo a transposição da literatura (em seu sentido mais estrito), já que extrapola a relação escritor-leitor, com outros meios, outras plataformas de expressão, outras tecnologias – nas óperas já se encontrava pretensão semelhante. O grande desafio, que atinge autores como André Sant’Anna e Marcelino Freire, é o de como envolver ainda mais os que se interessam pela arte e queiram enfrentá-la, mesmo que eventualmente.

Continue lendo: More »

Rosa Lobato, poesia e esquinas que se foram

Nesta última terça-feira faleceu em Lisboa, aos 77 anos, a escritora e atriz portuguesa Rosa Lobato de Faria. Deixou vários romances, entre eles, “As Esquinas do Tempo”, lançado aqui ano passado. Rosa narra a lírica história de uma professora de matemática que descobre num quarto de hotel uma tela em óleo de um homem parecido com seu atual amor. Eis que no dia seguinte, de súbito, ela sai do ano de 2008, onde estava, e acorda em 1908, na casa de parentes distantes. Perplexa, atônita, e cem anos antes, Margarida se aborrece com essa nova realidade, mas acaba conhecendo o homem do quadro, e por ele se apaixona.

Um acidente inverte o processo, com ela voltando ao tempo atual. Segundo Rosa, a ideia do livro surgiu após pernoitar em uma pousada. “A casa estava tal e qual era no início do século. O quarto onde fiquei estava cheio de fotografias antigas, tudo ali tinha o sabor de outros tempos. Deitei-me e naquele lusco-fusco pensei que seria engraçado adormecer e acordar 100 anos atrás, no tempo do quarto. Imediatamente veio a ideia de escrever a história”, contou Rosa, logo após o lançamento do livro. A obra teve um sucesso comercial imediato em Portugal.

Romancista, poetisa, atriz, letrista, autora infantil, Rosa estreou como locutora da RTP na década de 60, sendo que em 1983 integrou o elenco da primeira novela portuguesa, “Vila Faia”. Mas começou a escrever romance tarde, aos 63 anos, sendo sua primeira obra “O Pranto de Lúcifer” (1995). Já publicara antes vários volumes de poesia (”Os Deuses de Pedra” (1983), “As Pequenas Palavras” (1987), “Poemas Escolhidos e Dispersos” (1997), “A Gaveta de Baixo” (1999), etc.). Como romancista publicou “Os Pássaros de Seda” (1996), “Romance de Cordélia” (1998), “A Flor do Sal” (2005), “A Estrela de Gonçalo Enes” (2007), dentre tantos, além de ter assinado vários livros infantis.

Rosa escrevia tudo a mão, sem computadores ou maquinas de escrever: “tenho uma ligação afetiva com a minha letra. Se não estiver boa, não escrevo”. “As Esquinas do Tempo” foi seu último trabalho publicado, mas a Editora Leya anunciou ontem que lançará na próxima semana “A Menina e o Cisne”, novo livro da autora. Termino com o Poema “A Vida num Sonho”, de Rosa Lobato Faria.

Continue lendo: More »

Encantador de Cães, e de público

cesar-millan2Cesar Millan tem 41 anos, é instrutor de cães, tem um programa semanal no National Geographic Channel chamado “O Encantador de Cães” (aqui passa pelo Animal Planet), possui uma clínica de recuperação canina em Los Angeles (Dog Psychology Center), uma revista mensal (Cesar’s Way) e é autor de vários livros, entre eles “O Encantador de Cães”, publicado aqui em 2007.

Millan está se transformando num ícone da mídia, e não sem motivos. Mexicano, fez o que fazem milhares de seus compatriotas todos os anos: atravessou ilegalmente a fronteira para os EUA. Tinha 18 anos, nenhum dinheiro no bolso, não falava Inglês e não conhecia nada e ninguém na América.

Desde logo começou a vender seus serviços de adestramento, de porta em porta, por alguns trocados, levantando o suficiente para ir sobrevivendo. Aos poucos foi conhecendo pessoas mais importantes, com mais dinheiro, com cães mais abusados, mal educados, e Cesar foi impondo respeito (trabalha com cães desde criança). O tempo passou, fundou uma pequena academia, depois outra maior, foi se especializando, trabalhando duro, aprendeu inglês, adestrou cães de celebridades, foi estudando técnicas de apresentação, e mais que tudo, foi encantando os cães e seus donos.

Em 2004 fez um piloto do programa “O Encantador de Cães”, e o sucesso não veio de imediato, mas aos poucos, lentamente, como tudo o que Millan faz, mas em 2006, 2007 e 2009 sua série já era nominada para ganhar o Emmy. Em 2000, conseguiu residir legalmente na América, e em 2009 tornou-se cidadão norte-americano. Autodidata, foi se impondo e mostrando que sem precisar ser gênio, ou PHD, era possível dominar os cães e levá-los a uma melhor convivência com seus “patrões”. Aliás, quem vê o programa logo percebe que o problema nunca está nos cães, mas quase sempre nos donos. Chega a ser irritante a forma como as pessoas não sabem lidar com sua “prole canina”, mimando, superprotegendo, ou incitando-os a serem desobedientes. Millan, com uma calma budista, vai mostrando na TV que às vezes é o dono que precisa ser “adestrado”.

Sua influência cresceu tanto que no final do ano passado o jornal The New York Times publicou artigo de Alex Williams (“Becoming the Alpha Dog in Your Own Home”) explicando que vários pais estavam utilizando as técnicas em adestramento de Millan para educar seus próprios filhos, com bons resultados. Sua estratégia é simples e está centrada em três eixos: exercícios, disciplina e afeto. Óbvio que não foi Millan que inventou essa forma de adestramento, mas seu poder de comunicação (às vezes um pouco cabotino) torna tudo muito efetivo.

Seu programa já é visto por mais de 11 milhões de espectadores a cada semana, seus livros já venderam mais de 2 milhões de cópias e seu site (cesarmillaninc.com) recebe mais de 400 mil visitas mensais. De acordo com MPH Entertainment, a produtora que é sócia de Millan em todas suas realizações, seu negócio deve chegar logo a 100 milhões de dólares. Nada mal para um mexicano, cristão, casado, dois filhos e que atua de maneira intensa em várias causas filantrópicas (como todo bom americano bem-sucedido). Millan é uma prova real de que a América continua a ser um templo do self-made men.



Close

Close