Há 70 anos falecia em Moscou (10 de Março de 1940) um dos mais brilhantes escritores russos, Mikhail Bulgákov, autor do consagrado “O Mestre e Margarida”, que levou mais de 12 anos para ser escrito, tendo o autor só terminado um ano antes de sua morte, quando já estava cego. Bulgákov, que também foi um brilhante dramaturgo, ditou os capítulos finais da obra para sua mulher, que pacientemente os escrevinhou e os guardou à sete chaves. O livro, publicado integralmente mais de 20 anos após sua morte (embora extratos tenham circulado numa revista literária em 1966), foi relançado esse ano no Brasil, ganhando pela primeira vez uma tradução direta do russo. A tradução de Zoia Prestes é soberba. Nascida no Rio de Janeiro (1962), filha do célebre Luiz Carlos Prestes, Zoia foi com a família para Moscou em 1970, onde ficou por 15 anos, tendo se formado em Pedagogia e Psicologia pela Universidade de Moscou.
Trata-se de uma tradução complexa, pois Bulgákov dedicou boa parte de sua vida à construção da obra e não poupou afrescos e hipérboles literárias para sua elaboração. Em “O Mestre e Margarida” Bulgákov refaz a temática “fáustica” invertendo os papéis: Margarida, influenciada por seu grande amor, o Mestre, é quem faz o pacto com o demônio (Woland), que chega com sua comitiva a Moscou em plena Era stalinista. Uma paródia às avessas da obra de Goethe, Fausto. A “trupe endiabrada”, que inclui o gigantesco gato Bieguemot (adora xadrez, vodka e armas), conhece e se envolve com o Mestre, um autor perseguido pelo Estado por ter publicado um romance sobre os dias finais de Jesus. É desnecessário dizer que o livro sofreu toda a sorte de censura não só do Estado como de boa arte do establishment intelectual soviético da época.
Antes de qualquer coisa o livro é uma deliciosa sátira, nem sempre fácil de acompanhar, mas absolutamente envolvente em seu humor corrosivo, do qual não escapa ninguém. Mas que não haja ilusões: a qualidade do livro está justamente no mix de divertimento com uma profunda reflexão sobre as falências da natureza humana. Foi revolucionária para a época (talvez até hoje seja), influenciou escritores (Salman Rushdie foi influenciado pelo russo em seu “Os Versos Satânicos“), pensadores, músicos (Mick Jagger teria lido a obra pouco antes de compor “Sympathy for the Devil“), e é considerada uma das mais importantes peças da literatura russa de todos os tempos.
Médico de formação, Bulgákov renunciou à medicina para se dedicar inteiramente a literatura e a dramaturgia, como descrito em “O Diabo Solto em Moscou”, uma coletânea de contos e novelas precedidos por um estudo sobre a vida e a obra do autor. Essa lenda da literatura russa teve uma vida difícil, estrangulada pelas sensações de ser um missionário, repleto de ansiedade e querença por libertação, em meio a uma sociedade que dia a dia caminhava para o obscurantismo. Morreu por “nefroesclerose hipertônica” (doença renal), sendo perseguido e castrado pelo governo de Stalin (que reza a lenda gostava de sua escrita). Bulgákov faz parte daquele grupo de autores que enfrentou o sistema, o medo, sua miserável saúde (morreu com quase 49 anos) e a não menos miserável miopia de um Estado totalitário. Enfrentou também, e venceu, o tempo. Seu trabalho continua sendo atual, mágico, uma ilha de excelência em meio a tanta literatura menor que a modernidade produziu. Uma única frase de “O Mestre” pode resumir Bulgákov, e descrever seu libelo constante contra as excrescências do autoritarismo: “Os manuscritos não ardem”.