19 ago2009

Consolação: o novo de Betty Milan

por Ruy Barata Neto (Cultura/Adm) | Literatura, Perfil, livros

(por Paula Medeiros, via drop post)

A escritora e psicanalista Betty Milan lança, nesta quarta, 19, seu 16° livro Consolação , aqui na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. O romance é sobre Laura, uma brasileira casada com um francês, que assiste a agonia e a morte do marido num hospital parisiense. Em luto, decide viajar para sua cidade natal, São Paulo, com a qual mantém uma relação de amor e ódio. E descobre uma metrópole que ninguém conhece, revelando ao leitor um universo de moradores invisíveis. Trata-se de uma história de ficção com toques autobiográficos. A idéia é trazer a morte para um plano de discussão. “Consolação é o que resta para os seres humanos: é saber que a perda de alguém não acaba com a existência. Sobram lembranças, as memórias”, afirma. Mais depois do jump. Aqui trecho do novo livro lido pela autora.

Imagem de Amostra do You Tube

Segundo a Betty Milan, Consolação também é um romance sobre a desfaçatez dos ricos sobre os pobres. “Isso é História, ancestralidade – a indiferença com relação a tudo o que é coletivo e pobre”, comenta. “Eu, que só escutei os ricos e as pessoas de classe média, queria escutar os pobres. Porque ouvir humaniza.” A obra foi um desafio para a psicanalista. “Fui mais longe do que eu já tinha ido em qualquer outro texto porque passei a olhar e a escutar os invisíveis, os mortos inaudíveis, os moradores de rua.”

Por meio de sua personagem, Betty dialoga também com um doloroso momento pessoal: a morte do marido, há cerca de cinco anos – o historiador e editor de artes Alain Mangin, com quem viveu por mais de duas décadas. “Todos os meus livros são assim, meio autobiográficos. Eu parto de fatos reais, mas a história é sempre inventada. Procuro encontrar na realidade aquilo que é irreal, inacreditável. É uma arte hiper-realista. A realidade é!”

Abordar o tema foi a maneira encontrada para saber qual é o consolo possível diante do fim da vida. “Nós não temos um ritual para a morte. Os índios sim. Temos velório e enterro, nosso rito termina aí. Não temos recursos tão eficazes quanto os índios, por exemplo, para superar o luto.” Para a autora, o segredo para superar a dor está na valorização da memória. “Rememorar a pessoa que morreu até ter a consciência de que ela não está viva, mas que ela existe e para sempre existirá.”

Betty é daquelas escritoras que encara o papel branco como o início de uma grande viagem, sem roteiro pré-estabelecido.“Gosto de descobrir a história à medida que ela vai sendo escrita. Escrevendo, reescrevendo, que é o princípio analítico. Você se surpreende o tempo todo. Escrevi muito até encontrar minha forma atual. Eu penei muito para ter a clareza de hoje.” O processo de criação de Consolação durou cerca de cinco anos. “O que demorou mais foi a pesquisa de campo, apesar de a história se passar em um espaço pequeno da cidade”, conta.

Vida e Obra
Descendente de imigrantes libaneses, desde criança ela tinha uma certeza: queria ser lida. “No ginásio eu sabia os poetas de cor, e entrava em competições para declamar o Navio Negreiro, de Castro Alves, que decorei em uma tarde.” Aos 18 anos teve o “atrevimento” de enviar um artigo para o jornal O Estado de S.Paulo. “Mandei para o suplemento de cultura um texto sobre cinema, O Silêncio Auto-Falante, que foi aceito e publicado”, diverte-se ao lembrar a história.

Apesar da paixão pela escrita, estudou medicina por uma imposição familiar. “Meu pai era médico e, em casa, a profissão valorizada era a liberal. Entrei na USP e cursei filosofia como ouvinte.” Na faculdade, descobriu a psiquiatria. “Eu estudava loucamente. Aos 18 anos já queria ser psicanalista. Aos 20 tinha consultório, antes mesmo de me formar.”

Aos 28 anos, decidiu mudar-se para Paris. “Em primeiro lugar, o que me atraiu foi a liberdade das mulheres na década de 70. Aqui, ninguém ia sozinha a cafés ou bares. Lá, isso era normal. A segunda razão foi minha vocação literária: a pressão e a riqueza da língua francesa me encantaram.” E, para facilitar ainda mais a decisão, “a situação política no Brasil era insuportável. Amigos exilados, torturados, presos. Tudo favorecia minha ida, e eu acabei gostando de ficar.”

Na França, estudou com o psicanalista e filósofo francês Jacques Lacan, de quem, posteriormente, se tornou tradutora e assistente. “O endereço do Lacan me foi dado por uma pessoa amiga. Depois de me formar, trabalhei com ele na universidade. Foi um privilegio absoluto.” Neste período, revolucionou a vida pessoal: separou-se do marido brasileiro e fincou de vez o pé na Europa. “Eu pretendia ficar quatro meses em Paris e fiquei quatro anos”, relembra a brasileira.  “É um exílio dourado. Sou estrangeira, eu só trabalho com eles.”

Em 1975, escreveu seu primeiro ensaio: O Jogo do Esconderijo. Em 1979, lançou “Manhas do Poder” e voltou para o Brasil. Ingressou na Sociedade Brasileira de Psicanálise, mas acabou sendo expulsa, “pois era muito irreverente”, conta rindo.  Além dos ensaios, publicou um livro de crônicas com o título Paris Não Acaba Nunca. A obra foi best-seller no Brasil e foi editada na França e na China. No fim da década de 70, Betty casou-se com Mangin, com quem viveu entre o Brasil e a França, cerca de seis meses por ano em cada país. “Em Paris, eu escrevo no período da tarde, cerca de quatro ou cinco horas. Pela manhã, vou ao banco, pratico esportes – faço ioga, ginástica, ando a pé. E à noite, eu leio quando posso. Aqui, pratico Tai Chi Chuan e nado, pois a água das piscinas no Brasil é quente”.

Nos anos 80 e 90 escreveu os romances O Sexophuro, O Papagaio e o Doutor, A Paixão de Lia, Clarão e O Amante Brasileiro – o que a consolidou como romancista -, além de ensaios como O que é Amor e O País da Bola. Em 1997, estreou como colunista no jornal A Folha de S. Paulo.

Em 2002, caiu nas graças do meio teatral adaptando A Paixão de Lia para os palcos. No ano seguinte, lançou o romance O Amante Brasileiro, que também ganhou adaptação para o teatro. Seu primeiro trabalho escrito diretamente para teatro foi Brasileira de Paris, de 2005, uma sátira ao machismo e à libertinagem. “Foi escrita para que as pessoas rissem”, diz.

Betty Milan é daquelas autoras que têm a rara capacidade de tirar, de cada pequena história, o seu caráter universal. O livro Fale com Ela, lançado em 2007, é outra prova disso. Traz as principais questões respondidas na coluna homônima – com conselhos para as mais diversas situações -, publicada aos domingos na Revista da Folha.

Neste ano, Betty Milan estreou uma coluna na Veja.com, intitulada O Consultório Sentimental. Além disso, uma vez por mês, publica na revista Veja um artigo exclusivo. “A coluna online recebe a visita de cerca de 60 mil pessoas em um mês.” Para atender aos pedidos, a editora da página faz uma triagem e envia à psicanalista vários casos para ela escolher o que vai responder. “Procuro valorizar casos singulares para promover a diferença. As pessoas respondem, participam, deixam comentários.” O espaço de contato vira uma espécie de fórum.  “A educação sentimental no mundo contemporâneo não é mais feita pela família nem pela literatura.”

Betty instiga o leitor a buscar seu próprio caminho à medida que se apropria de suas dúvidas para inspirar seus trabalhos.  Em O Amante Brasileiro, por exemplo, há inúmeras passagens cujo ponto de partida foram relatos reais. “O Batty Papo (chat no UOL) inspirou o livro, que inspirou o Consultório Sentimental que, por sua vez, vai inspirar o Teatro do Inconsciente, que é a encenação do Fale com Ela.

Ruy Barata Neto (Cultura/Adm)

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3 Responses to “Consolação: o novo de Betty Milan”

  1. Ediane do Monte 03. jan, 2010 at 22:41 #

    Prezada Betty,
    Estou encantada com seu novo livro consolacao,gostaria
    de saber sobre os ultimos dias de Alain Mangin e o falecimento.
    Tive uma profunda dada amizade com ele de1999 até 2004.
    Delicadamente
    Ediane do Monte

  2. Ediane do Monte 03. jan, 2010 at 22:41 #

    Prezada Betty,
    Estou encantada com seu novo livro consolacao,gostaria
    de saber sobre os ultimos dias de Alain Mangin e o falecimento.
    Tive uma profunda dada amizade com ele de1999 até 2004.
    Delicadamente
    Ediane do Monte

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