Consolação: o novo de Betty Milan
por Ruy Barata Neto (Cultura/Adm) | Literatura, Perfil, livros
(por Paula Medeiros, via drop post)
A escritora e psicanalista Betty Milan lança, nesta quarta, 19, seu 16° livro Consolação , aqui na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. O romance é sobre Laura, uma brasileira casada com um francês, que assiste a agonia e a morte do marido num hospital parisiense. Em luto, decide viajar para sua cidade natal, São Paulo, com a qual mantém uma relação de amor e ódio. E descobre uma metrópole que ninguém conhece, revelando ao leitor um universo de moradores invisíveis. Trata-se de uma história de ficção com toques autobiográficos. A idéia é trazer a morte para um plano de discussão. “Consolação é o que resta para os seres humanos: é saber que a perda de alguém não acaba com a existência. Sobram lembranças, as memórias”, afirma. Mais depois do jump. Aqui trecho do novo livro lido pela autora.
Segundo a Betty Milan, Consolação também é um romance sobre a desfaçatez dos ricos sobre os pobres. “Isso é História, ancestralidade – a indiferença com relação a tudo o que é coletivo e pobre”, comenta. “Eu, que só escutei os ricos e as pessoas de classe média, queria escutar os pobres. Porque ouvir humaniza.” A obra foi um desafio para a psicanalista. “Fui mais longe do que eu já tinha ido em qualquer outro texto porque passei a olhar e a escutar os invisíveis, os mortos inaudíveis, os moradores de rua.”
Por meio de sua personagem, Betty dialoga também com um doloroso momento pessoal: a morte do marido, há cerca de cinco anos – o historiador e editor de artes Alain Mangin, com quem viveu por mais de duas décadas. “Todos os meus livros são assim, meio autobiográficos. Eu parto de fatos reais, mas a história é sempre inventada. Procuro encontrar na realidade aquilo que é irreal, inacreditável. É uma arte hiper-realista. A realidade é!”
Abordar o tema foi a maneira encontrada para saber qual é o consolo possível diante do fim da vida. “Nós não temos um ritual para a morte. Os índios sim. Temos velório e enterro, nosso rito termina aí. Não temos recursos tão eficazes quanto os índios, por exemplo, para superar o luto.” Para a autora, o segredo para superar a dor está na valorização da memória. “Rememorar a pessoa que morreu até ter a consciência de que ela não está viva, mas que ela existe e para sempre existirá.”
Betty é daquelas escritoras que encara o papel branco como o início de uma grande viagem, sem roteiro pré-estabelecido.“Gosto de descobrir a história à medida que ela vai sendo escrita. Escrevendo, reescrevendo, que é o princípio analítico. Você se surpreende o tempo todo. Escrevi muito até encontrar minha forma atual. Eu penei muito para ter a clareza de hoje.” O processo de criação de Consolação durou cerca de cinco anos. “O que demorou mais foi a pesquisa de campo, apesar de a história se passar em um espaço pequeno da cidade”, conta.
Vida e Obra
Descendente de imigrantes libaneses, desde criança ela tinha uma certeza: queria ser lida. “No ginásio eu sabia os poetas de cor, e entrava em competições para declamar o Navio Negreiro, de Castro Alves, que decorei em uma tarde.” Aos 18 anos teve o “atrevimento” de enviar um artigo para o jornal O Estado de S.Paulo. “Mandei para o suplemento de cultura um texto sobre cinema, O Silêncio Auto-Falante, que foi aceito e publicado”, diverte-se ao lembrar a história.
Apesar da paixão pela escrita, estudou medicina por uma imposição familiar. “Meu pai era médico e, em casa, a profissão valorizada era a liberal. Entrei na USP e cursei filosofia como ouvinte.” Na faculdade, descobriu a psiquiatria. “Eu estudava loucamente. Aos 18 anos já queria ser psicanalista. Aos 20 tinha consultório, antes mesmo de me formar.”
Aos 28 anos, decidiu mudar-se para Paris. “Em primeiro lugar, o que me atraiu foi a liberdade das mulheres na década de 70. Aqui, ninguém ia sozinha a cafés ou bares. Lá, isso era normal. A segunda razão foi minha vocação literária: a pressão e a riqueza da língua francesa me encantaram.” E, para facilitar ainda mais a decisão, “a situação política no Brasil era insuportável. Amigos exilados, torturados, presos. Tudo favorecia minha ida, e eu acabei gostando de ficar.”
Na França, estudou com o psicanalista e filósofo francês Jacques Lacan, de quem, posteriormente, se tornou tradutora e assistente. “O endereço do Lacan me foi dado por uma pessoa amiga. Depois de me formar, trabalhei com ele na universidade. Foi um privilegio absoluto.” Neste período, revolucionou a vida pessoal: separou-se do marido brasileiro e fincou de vez o pé na Europa. “Eu pretendia ficar quatro meses em Paris e fiquei quatro anos”, relembra a brasileira. “É um exílio dourado. Sou estrangeira, eu só trabalho com eles.”
Em 1975, escreveu seu primeiro ensaio: O Jogo do Esconderijo. Em 1979, lançou “Manhas do Poder” e voltou para o Brasil. Ingressou na Sociedade Brasileira de Psicanálise, mas acabou sendo expulsa, “pois era muito irreverente”, conta rindo. Além dos ensaios, publicou um livro de crônicas com o título Paris Não Acaba Nunca. A obra foi best-seller no Brasil e foi editada na França e na China. No fim da década de 70, Betty casou-se com Mangin, com quem viveu entre o Brasil e a França, cerca de seis meses por ano em cada país. “Em Paris, eu escrevo no período da tarde, cerca de quatro ou cinco horas. Pela manhã, vou ao banco, pratico esportes – faço ioga, ginástica, ando a pé. E à noite, eu leio quando posso. Aqui, pratico Tai Chi Chuan e nado, pois a água das piscinas no Brasil é quente”.
Nos anos 80 e 90 escreveu os romances O Sexophuro, O Papagaio e o Doutor, A Paixão de Lia, Clarão e O Amante Brasileiro – o que a consolidou como romancista -, além de ensaios como O que é Amor e O País da Bola. Em 1997, estreou como colunista no jornal A Folha de S. Paulo.
Em 2002, caiu nas graças do meio teatral adaptando A Paixão de Lia para os palcos. No ano seguinte, lançou o romance O Amante Brasileiro, que também ganhou adaptação para o teatro. Seu primeiro trabalho escrito diretamente para teatro foi Brasileira de Paris, de 2005, uma sátira ao machismo e à libertinagem. “Foi escrita para que as pessoas rissem”, diz.
Betty Milan é daquelas autoras que têm a rara capacidade de tirar, de cada pequena história, o seu caráter universal. O livro Fale com Ela, lançado em 2007, é outra prova disso. Traz as principais questões respondidas na coluna homônima – com conselhos para as mais diversas situações -, publicada aos domingos na Revista da Folha.
Neste ano, Betty Milan estreou uma coluna na Veja.com, intitulada O Consultório Sentimental. Além disso, uma vez por mês, publica na revista Veja um artigo exclusivo. “A coluna online recebe a visita de cerca de 60 mil pessoas em um mês.” Para atender aos pedidos, a editora da página faz uma triagem e envia à psicanalista vários casos para ela escolher o que vai responder. “Procuro valorizar casos singulares para promover a diferença. As pessoas respondem, participam, deixam comentários.” O espaço de contato vira uma espécie de fórum. “A educação sentimental no mundo contemporâneo não é mais feita pela família nem pela literatura.”
Betty instiga o leitor a buscar seu próprio caminho à medida que se apropria de suas dúvidas para inspirar seus trabalhos. Em O Amante Brasileiro, por exemplo, há inúmeras passagens cujo ponto de partida foram relatos reais. “O Batty Papo (chat no UOL) inspirou o livro, que inspirou o Consultório Sentimental que, por sua vez, vai inspirar o Teatro do Inconsciente, que é a encenação do Fale com Ela.


Prezada Betty,
Estou encantada com seu novo livro consolacao,gostaria
de saber sobre os ultimos dias de Alain Mangin e o falecimento.
Tive uma profunda dada amizade com ele de1999 até 2004.
Delicadamente
Ediane do Monte
Prezada Betty,
Estou encantada com seu novo livro consolacao,gostaria
de saber sobre os ultimos dias de Alain Mangin e o falecimento.
Tive uma profunda dada amizade com ele de1999 até 2004.
Delicadamente
Ediane do Monte