03 nov2009

Fim do Muro e o massacre que não houve

por Kelly de Souza | História, Política, livros

muro
Entramos na semana comemorativa dos 20 anos da queda do Muro de Berlim. No dia 9 de Novembro o mundo vai lembrar o que aconteceu em 1989 na fronteira que até então dividia as duas Alemanhas. As mídias, os políticos, e, principalmente, a população que estava pelas redondezas não deixarão de lembrar a data. O que aconteceu ali, naquele dia, naquela noite, naquelas horas de pânico, de ansiedade e de euforia jamais será esquecido pela história da civilização humana, como tão bem descreveu Michael Meyer no livro “1989 – O Ano Que Mudou O Mundo”, ou Flavia Bancher em seu “A Queda do Muro de Berlim”. Nada foi igual nas sociedades ocidentais e orientais depois daqueles acontecimentos. A narração do mundo contemporâneo foi dividida em antes e depois que aqueles 155 quilômetros de ferros contorcidos vieram abaixo.

O tenente-coronel Harald Jaeger estava ao pé dos acontecimentos em novembro de 89, ao pé do Muro, ao pé da história. Tinha 46 anos e fosse ele menos sagaz e os fatos daquele dia estariam mais encharcados de sangue de inocentes. Jaeger foi esquecido pela história por não querer entrar para ela como mais um carrasco comunista, como tantos o foram ao longo dos anos de Guerra Fria.

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No dia 2 de Maio de 89, a Hungria desmonta os 500 metros de arame farpado que a separavam da Áustria. Enquanto as câmeras de TV mostravam os ministros dos dois países, lado a lado, alicate em punho, rompendo a cerca, cidadãos da antiga Alemanha Oriental (RDA) já fugiam desesperados, tentando usar aquela saída para escaparem das forças comunistas que ainda reprimiam a tudo e a todos. Vários deles foram apanhados durante a fuga, mas muitos conseguiram chegar à Alemanha Ocidental (RFA).

A tensão na fronteira era grande em 89. Soldados ainda guardavam os mais de 300 postos de observação na Berlim Oriental, olhando atentamente a área fronteiriça com mais de 100 metros de largura (“faixa da morte”). A ordem era atirar ou prender qualquer alemão oriental que tentasse ultrapassar a fronteira erguida em 1961. Em 1º de Outubro de 89, o ministro do Exterior da Alemanha Ocidental anunciou muro3a chegada de mais de 3 mil refugiados vindos do lado oriental, e no mesmo dia mais de 800 alemães do leste eram recebidos na Embaixada Ocidental em Varsóvia. Em 4 de Outubro a Alemanha Oriental “engole” o refúgio de mais cidadãos do leste na embaixada Ocidental em Praga, e os tumultos se espalham por cada esquina. A confusão é generalizada. Em 7 de Outubro, a RDA comemora o seu 40º aniversário com um grande desfile. Nele estava o primeiro-ministro soviético Mikhail Gorbachev, que sem graça, sem jeito e sem esperança de controlar as coisas assiste o Palácio da República em Berlim ser completamente cercado pela polícia à luz das manifestações que estouravam pela cidade. O clima era de insubordinação civil, e em 4 de Novembro perto de meio milhão de pessoas protestavam na Berlim Oriental contra o regime comunista.

No dia 9 de Novembro, às seis horas da tarde, um membro de Politurbo (Günther Schabowski), ao finalizar uma entrevista, anuncia que todos os residentes do lado Oriental poderiam sair do país sem restrições. Atônitos, jornalistas, políticos, exército e a população não acreditavam no que ouviam. As fronteiras teriam de ser abertas imediatamente, segundo Schabowski. Loucura, confusão, meios de comunicação travados, a TV explodindo notícias no mundo todo, as pessoas em misto de euforia e preocupação e o exército fronteiriço completamente confuso com a declaração. Tão logo ouviu Schabowski, Harald Jaeger, comandante de um dos postos de fronteira, leva um susto, engasga com a refeição que fazia e perplexo pensa nas ordens que havia recebido dias antes (usar a força diante de qualquer tentativa de cruzamento da fronteira). Olhou à frente e percebeu que uma centena de pessoas já chegava perto da “faixa da morte” esbravejando palavras de ordem.

Jaeger estava no Muro desde 61, e sua função era eminentemente caçar os que tentassem cruzá-lo. Sem saber o que fazer ligou para seu superior, Coronel Rudi Ziegenhorn. Quando foi entrevistado pelo jornalista Roger Cohen, do The New York Times, dez anos depois do ocorrido (1999), Jaeger lembrou do diálogo com Rudi. ”Você já ouviu esse absurdo na TV?”, perguntou seu superior. ”Sim, e é justamente por isso que estou lhe ligando”, respondeu Jaeger. O conversa transcorreu com ambas as partes certas de que tudo não passava de um mal-entendido, e que os rebeldes deveriam ser dispersados. O tempo passava, o número de pessoas aumentava, e os próprios guardas sob seu comando se entreolhavam sem condições de coerção. Meia hora depois, Jaeger liga novamente para Ziegenhorn informando as dificuldades. Este, por sua vez, também subiu a hierarquia de comando em busca de ordens, mas ninguém sabia o que fazer. Foi quando Jaeger ouviu de seu superior: “Não há mais ordens, mais nada o que dizer”.

A aglomeração crescia e os soldados pressionavam Jaeger para uma decisão, que ficou ali paralisado por quase quarenta minutos sem saber o que decidir. Ouvia os gritos, ouvia seus subordinados clamando por ordens, e não ouvia mais nada de seus superiores. Perto das 23h30 horas, num gesto de grande sabedoria e bom senso (e medo), ele ordena que os portões sejam abertos. Ali, naquele momento, naquela sequência de fatos, poderia ter havido um massacre caso Jaeger tivesse feito o que sempre lhe ordenaram fazer. Aquele foi um momento marcante da história do Muro e talvez tenha sido Jaeger quem primeiro abriu as portas para o fim da divisão da Europa e o fim da Guerra Fria, como descreveu Frederic Taylor em sua obra “O Muro de Berlim – Um Mundo Dividido 1961-1989”.

Depois do ocorrido, Harald Jaeger permaneceu em Berlim, e em 1997 conseguiu algum dinheiro emprestado e abriu uma banca de jornais. Hoje, aos 66 anos, está aposentado e cuida do jardim de sua casa localizada perto de Berlim. Até a semana passada não havia sido convidado para as comemorações oficiais dos 20 anos da queda do Muro.

Kelly de Souza é jornalista colaboradora da Revista da Cultura e Blog da Cultura. Compulsiva por literatura, chocolate e escrita - não necessariamente nessa ordem.

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No Responses to “Fim do Muro e o massacre que não houve”

  1. Sergio Miguez 03. nov, 2009 at 11:08 #

    O crítico de cinema Christian Petermann escreve sobre o tema do MURO no CINEMA alemão, na próxima edição da Revista da Cultura. Legal a reportagem, que ainda tem um box falando da questão na Literatura. Dia 6 nas Livrarias.

  2. Spencer 03. nov, 2009 at 19:19 #

    excepcional texto, parabéns!

  3. Monteiro 03. nov, 2009 at 23:23 #

    Lindíssimo o seu texto! Li como se fosse um filme, completamente absorto no enredo! Parabéns Kelly!

    E o mais bonito disso tudo é que, hoje, Berlim, é uma das cidades mais modernas da europa, tendo integrado a parte de leste (quase) na perfeição.

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