15 jan2010

Os comes e bebes nos velórios das Gerais

por Kelly de Souza | Gastronomia, Literatura, livros

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A ligação entre comida e morte pode parecer inusitada, mas, em Minas Gerais, os comes e bebes nas cerimônias fúnebres são uma tradição. Quem conhece bem este costume é a mineira de Uberaba, Déa Rodrigues da Cunha Rocha, que buscando preservar as receitas tradicionais de antigas cozinheiras, chegou a um apanhado de causos engraçados ocorridos em velórios. Contradição? Nem tanto… Criada em fazenda e quituteira de mão cheia, ela explica como uma pesquisa sobre comida mineira acabou em velório:

“Comecei a pesquisar as receitas antigas e viajava muito por aquele interiorzão mineiro, parado no tempo. Entre uma receita e outra surgiram relatos bem divertidos. E, em um belo dia, percebi que tinha uma porção de histórias malucas em velórios ligadas à comida. Mineiro é um povo diferente, muito atrapalhado e engraçado. E em velórios feitos nas fazendas, as pessoas geralmente passam a noite. Com isso, vem a amabilidade do dono do defunto que alimenta as pessoas, dando um relativo conforto para os amigos que foram fazer companhia naquela hora difícil. Nem sempre tão difícil porque há coisas muito engraçadas. Parece que a morte fica em segundo plano, porque tem aquele congraçamento de pessoas, que quase não se encontram”, conta.

A experiência de Déa, que é formada em Letras e em Direito, resultou na publicação do livro “Os Comes e Bebes Nos Velórios das Gerais e Outras Histórias“, um apanhado de 18 histórias, todas verídicas, da região centro-oeste de Minas Gerais, acompanhadas – é claro – de 21 receitas de broas, biscoitos, pães de queijo, docinhos… “Especialmente as quitandas, que são aquelas comidas que servem para se tomar com café ou uma pinguinha acompanhada de caldo de feijão. O infeliz mal morreu e já tem alguém correndo atrás de uma galinha no quintal para fazer uma coxinha, uma empada”, brinca.

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Mesmo com a tradicional cautela do povo mineiro, que cessava a conversa com a simples presença de um gravador, Déa foi recolhendo os relatos, com o cuidado de preservar os nomes das pessoas e cidades. Entre eles, conta: “Parece que depois que morre há um conformismo natural, e não se vê ninguém muito desesperado. Mas, tem a história de um marido, que ficou desesperado com a morte da esposa, e na hora de se despedir foi passando as mãos nas pernas da mulher e levantando a roupa dela. As flores todas foram caindo no chão, ao mesmo tempo em que dizia: ‘ah, Dolores! Eu nunca mais vou ver suas pernas! Suas pernas eram as mais lindas do mundo’. As senhoras presentes ficaram escandalizadas, e os homens pesarosos porque nunca tinham reparado nas pernas da Dolores”.

O registro das receitas antigas, e, as histórias brejeiras de um povo simples e autêntico, renderam a terceira colocação no prêmio Jabuti (categoria contos), em 2009. Aos 77 anos, Déa promete não parar por aí e está finalizando o próximo livro “Tradições cheirosas e amorosas das Gerais”, que trata dos recursos que eram usados nas fazendas para suprir a falta de cosméticos, além de muitos causos de amor, noivado, casamento e separações. Com a simpatia mineira habitual, Déa conversou com o Blog da Cultura sobre o sucesso de “Comes e Bebes”. Acompanhe.

Kelly de Souza é jornalista colaboradora da Revista da Cultura e Blog da Cultura. Compulsiva por literatura, chocolate e escrita - não necessariamente nessa ordem.

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4 Responses to “Os comes e bebes nos velórios das Gerais”

  1. Spencer 15. jan, 2010 at 15:36 #

    Essa senhora é a gloria!! Vou voando ver esse livro, que ideia!

  2. Sergio Miguez 15. jan, 2010 at 18:26 #

    Uma delícia de livro! Revelador da alma brasileira.
    Parabéns a autora pela ideia e pesquisa das boas.
    mais sobre RITOS DE PASSAGEM na edição de outubro de 2009 da Revista da Cultura numa excelente matéria do grande jornalista Fernando Portela.
    http://www.revistadacultura.com.br

  3. Sabrina Mix 04. fev, 2010 at 13:16 #

    Oi, Kelly!

    Adorei o post! Já linkei lá no meu blog. Depois dá uma passadinha lá para conferir!

    Beijos e sucesso!!!

Trackbacks/Pingbacks

  1. Nunca é tarde para começar a escrever | Blog da Cultura - 20. jul, 2010

    [...] Nunca é tarde para começar. A inglesa Barbara Reynolds, uma das mais respeitadas estudiosas da vida e da obra de Dante Alighieri, publicou em 2006, quando já tinha mais de 90 anos, a obra Dante: the poet, the political thinker, the man. Famosa por ter feito a melhor tradução de A Divina Comédia para o inglês, ela provocou uma revolução nos estudos sobre Dante ao revelar em seu livro que o grande poeta florentino usou drogas, como maconha e mescalina. Nunca é tarde para começar. Outros dois exemplos: o grande Charles Perrault (1628-1703), escritor e poeta francês que estabeleceu as bases para um novo gênero literário, o conto de fadas (Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, O Pequeno Polegar, etc.) começou a publicar suas obras quando tinha mais de 67 anos, e o autor britânico Harry Bernstein, começou a escrever seu primeiro livro (Invisible Wall) quando tinha 93 anos, sendo publicado em 2007 quando já estava com 96. Nunca é tarde. Mesmo a nossa Zélia Gattai (1916-2008), que deixou maravilhosas obras, só escreveu seu primeiro livro, Anarquistas, graças a deus, aos 63 anos. E que livro! Outro exemplo brasileira, é da escritora Déa Rodrigues, que publicou em 2008, aos 76 anos, o delicioso e engraçado Os Comes e Bebes nos velórios das Gerais e outras histórias, que ficou com o terceiro lugar do concorrídissimo Prêmio Jabuti, categoria contos, em 2009. (veja a entrevista completa e o vídeo aqui). [...]

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