Os comes e bebes nos velórios das Gerais
por Kelly de Souza | Gastronomia, Literatura, livros
A ligação entre comida e morte pode parecer inusitada, mas, em Minas Gerais, os comes e bebes nas cerimônias fúnebres são uma tradição. Quem conhece bem este costume é a mineira de Uberaba, Déa Rodrigues da Cunha Rocha, que buscando preservar as receitas tradicionais de antigas cozinheiras, chegou a um apanhado de causos engraçados ocorridos em velórios. Contradição? Nem tanto… Criada em fazenda e quituteira de mão cheia, ela explica como uma pesquisa sobre comida mineira acabou em velório:
“Comecei a pesquisar as receitas antigas e viajava muito por aquele interiorzão mineiro, parado no tempo. Entre uma receita e outra surgiram relatos bem divertidos. E, em um belo dia, percebi que tinha uma porção de histórias malucas em velórios ligadas à comida. Mineiro é um povo diferente, muito atrapalhado e engraçado. E em velórios feitos nas fazendas, as pessoas geralmente passam a noite. Com isso, vem a amabilidade do dono do defunto que alimenta as pessoas, dando um relativo conforto para os amigos que foram fazer companhia naquela hora difícil. Nem sempre tão difícil porque há coisas muito engraçadas. Parece que a morte fica em segundo plano, porque tem aquele congraçamento de pessoas, que quase não se encontram”, conta.
A experiência de Déa, que é formada em Letras e em Direito, resultou na publicação do livro “Os Comes e Bebes Nos Velórios das Gerais e Outras Histórias“, um apanhado de 18 histórias, todas verídicas, da região centro-oeste de Minas Gerais, acompanhadas – é claro – de 21 receitas de broas, biscoitos, pães de queijo, docinhos… “Especialmente as quitandas, que são aquelas comidas que servem para se tomar com café ou uma pinguinha acompanhada de caldo de feijão. O infeliz mal morreu e já tem alguém correndo atrás de uma galinha no quintal para fazer uma coxinha, uma empada”, brinca.
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Mesmo com a tradicional cautela do povo mineiro, que cessava a conversa com a simples presença de um gravador, Déa foi recolhendo os relatos, com o cuidado de preservar os nomes das pessoas e cidades. Entre eles, conta: “Parece que depois que morre há um conformismo natural, e não se vê ninguém muito desesperado. Mas, tem a história de um marido, que ficou desesperado com a morte da esposa, e na hora de se despedir foi passando as mãos nas pernas da mulher e levantando a roupa dela. As flores todas foram caindo no chão, ao mesmo tempo em que dizia: ‘ah, Dolores! Eu nunca mais vou ver suas pernas! Suas pernas eram as mais lindas do mundo’. As senhoras presentes ficaram escandalizadas, e os homens pesarosos porque nunca tinham reparado nas pernas da Dolores”.
O registro das receitas antigas, e, as histórias brejeiras de um povo simples e autêntico, renderam a terceira colocação no prêmio Jabuti (categoria contos), em 2009. Aos 77 anos, Déa promete não parar por aí e está finalizando o próximo livro “Tradições cheirosas e amorosas das Gerais”, que trata dos recursos que eram usados nas fazendas para suprir a falta de cosméticos, além de muitos causos de amor, noivado, casamento e separações. Com a simpatia mineira habitual, Déa conversou com o Blog da Cultura sobre o sucesso de “Comes e Bebes”. Acompanhe.


Essa senhora é a gloria!! Vou voando ver esse livro, que ideia!
Uma delícia de livro! Revelador da alma brasileira.
Parabéns a autora pela ideia e pesquisa das boas.
mais sobre RITOS DE PASSAGEM na edição de outubro de 2009 da Revista da Cultura numa excelente matéria do grande jornalista Fernando Portela.
http://www.revistadacultura.com.br
Oi, Kelly!
Adorei o post! Já linkei lá no meu blog. Depois dá uma passadinha lá para conferir!
Beijos e sucesso!!!