21/03/2010   RSS posts: 989comentários: 2.245 updaters: 559
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Author Archive for Fábio Outsuka (Cultura/Pompéia)

Dark Was The Night

No começo dos anos 90 uma coletânea chamada Red Hot + Blue causou enorme frisson na mídia internacional.  Tratava-se de um esforço coletivo entre vários dos grandes nomes da época, que lançaram um álbum beneficente regravando músicas do Cole Porter.  O álbum foi um dos primeiros esforços culturais de grande alcance popular na luta contra a AIDS.  Lá estavam Sinead O’Connor gravando You Do Something To Me, David Byrne transformando Don’t Fence Me In em samba, Neneh Cherry com uma controversa versão de I’ve Got You Under My Skin, entre outros. O esforço foi notado, e a Red Hot Organization seguiu em frente com novos projetos (entre eles um entitulado Red, Hot + Rio, com diversas regravações de Bossa lançado em 1996), mas sem o mesmo impacto daquele primeiro. 

Agora surge a coletânea Dark Was The Night, o mais recente lançamento da Red Hot.  Compilado e organizado pelos irmãos Bryce e Aaron Dessner (ambos da banda The National), Dark Was The Night reúne alguns dos maiores nomes da música alternativa de hoje — Cat Power, Spoon, Beirut,  Feist, Decemberists, My Morning Jacket, New Pornographers, Arcade Fire, Sharon Jones, Andrew Bird (e muitos mais) participam do álbum.  Apesar de não ter nenhuma diretriz temática aparente (tem covers, versões, músicas inéditas, etc.) e de ser um CD duplo (ou LP triplo!), a lista de músicas é bem coesa e no geral as faixas conversam bem entre si.  Com certeza merece ser ouvido (e adquirido) não só pela causa que representa, mas também pela boa música que contém.  

Os dois CDs são divididos entre o “This Disc” e o “That Disc”.  Nada de CDs 1 e 2, aqui você ouve na ordem que bem entender.  Ambos abrem com músicas bem enérgicas (o primeiro com Knotty Pine, uma parceria dos Dirty Projectors com um David Byrne ainda em forma, e o segundo com Well-Alright, um rockabilly com uma forte linha de baixo dos rapazes do Spoon), mas no final das contas acabam ficando mais na linha pop-folk/alt-country.  Além das faixas de abertura, destaques para Lenin, do Arcade Fire (retomando o estilo do primeiro disco Funeral), para a deliciosa versão que Sharon Jones faz para Inspiration Information do Shuggy Otis, e para a belíssima Feeling Good com My Brightest Diamond.  Ouça após o break algumas dessas faixas, e deixe sua opinião! 

 

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Spoon: O show menos esperado do ano em SP

(por Fabio Outsuka, via Cultura UoD)

Neste sábado teremos em SP um dos festivais de rock mais aguardados do ano. Se o Tim Festival deste ano foi marcado pelas noites relativamente vazias nos eventos rock, o Planeta Terra deve ser o contrário — todos os 15 mil ingressos do evento já estão vendidos. Não é para menos, o festival traz um belo mix: bandas históricas do rock (Jesus & Mary Chain), bandas extremamente populares (Offspring), bandas que explodiram recentemente (Kaiser Chiefs, Bloc Party), nomes emergentes da cena nacional (Vanguart, Mallu Magalhães, Curumim), DJs renomados (Felix da Housecat, Mau Mau), etc. Tem para todos os gostos, o que é bom, já que serão palcos simultâneos e as pessoas terão de perder alguns showspara assistir outros.

Segundo uma enquete feita no próprio site do evento, o show internacional menos aguardado é o da banda texana Spoon (apenas 2,84% dos votos). Arrisco, no entanto, a dizer que será o melhor show da noite. Spoon é uma das melhores bandas do rock americano recente, mesclando folk, soul, electro e muito mais com um guitar rock de riffs firmes e marcantes. Britt Daniel, guitarrista, vocalista e líder da banda, é um desses novos gênios da música atual, criando belíssimas canções com uma produção cuidadosa e rica, cheia de pequenos detalhes. Os dois últimos discos da banda (Gimme Fiction, de 2005, e Ga Ga Ga Ga Ga, de 2007) não foram lançados no Brasil e talvez por isso sejam um tanto desconhecidos do público. Uma pena, pois são discos excelentes e devem compor a maior parte do setlist do show em SP.

Para esclarecer qualquer dúvida sobre o som da banda, confira o vídeo abaixo de uma apresentação deles no David Letterman Show. The Underdog traz como base uma seção de metais no melhor estilo Motown, alternando com um violão e tamborim folk. Inesperado e surpreendente — exatamente como deve ser o show deles depois de amanhã.

A promessa Canadense enfim cumprida; ou Os lobos tardam mas não falham; ou Possivelmente o melhor disco do ano; ou Hype vs. Hope, tundra style

At Mount Zoomer

Em 2005 o mundo da música alternativa (ou independente, ou indie, ou alt, etc.) resolveu prestar muita atenção no cenário musical canadense.  Na verdade, acho que foi o contrário.  Em 2005 o cenário do rock alternativo canadense chamou a atenção para si, com uma explosão de sons que eram genuinamente NOVOS, e não reciclados como eram os sons que apareciam em Nova Iorque (Strokes, Interpol, etc.) ou Londres (Futureheads, Kaiser Chiefs).  Bandas como Arcade Fire, Broken Social Scene, Frog Eyes, Islands, Wolf Parade e outros apareciam com força nas rádios do meio alternativo, nas resenhas de sites como Pitchfork e NME, nas páginas das RollingStones, Qs, Mojos e etc. mundo afora.  Para um país já acostumado a gerar ícones pop (Bryan Adams, Celine Dion, Alanis Morissette, etc.) e alguns ícones rock (Neil Young, Rush), essa pequena exposição não foi grande coisa.  Mas desde o boom do grunge em Seattle no começo dos anos 90 que não se via tanta atenção da mídia especializada voltada para uma específica área geográfica do globo e resultando em uma espécie de determinismo moderno relativo à música, liderado pelo Arcade Fire e o excelente álbum de estréia Funeral.

Retomo este nada remoto passado pois, após 2005, pouco voltou a se falar sobre este cenário.  As bandas da época lançaram novos álbuns, mas nem mesmo o aguardado Neon Bible do Arcade Fire (lançado ano passado) conseguiu igualar a qualidade do som que emanava da Tundra alguns anos antes.  Tudo perdido, certo? Foi somente um ano bom, atípico, certo? Errado.

Ao menos uma banda conseguiu realmente evoluir de toda a hype de 2005.  Em Junho deste ano o Wolf Parade lançou At Mount Zoomer. O lançamento veio com pouco alarde, talvez pela relativa decepção recente de álbuns aguardados (como o citado Neon Bible, ou o Some Loud Thunder do Clap Your Hands Say Yeah!, ou Weekend In The City do Bloc Party), talvez pelos boatos de que a banda havia se partido com os múltiplos projetos paralelos dos membros da banda.  Mas o fato é que At Mount Zoomer é um grande candidato ao melhor álbum do ano, assim como o seu precedente Apologies To The Queen Mary o foi em 2005.

A grande diferença deste para as decepções mencionadas é que o Wolf Parade não gravou um segundo disco reagindo sobre o primeiro. É normal bandas que tenham sucesso no álbum de estréia tentarem ou recriá-lo ou fugir dele completamente.  O Wolf Parade simplesmente evoluiu.  Elaborou composições melhores, algumas talvez bem diferentes das do primeiro disco, mas não negou ser o que é e nem simplesmente se clonou.  Surgiu, mais uma vez, com um som que é NOVO e legítimo.

Assim como o primeiro, o álbum é permeado por composições dos dois vocalistas, Dan Boeckner (também guitarrista) e Spencer Krug (tecladista).  Mas desta vez as músicas se misturam mais, são mais coesas.  Pelos vocais fica claro quem escreveu qual música, mas mesmo assim as guitarras de Boeckner contribuem mais para as músicas de Krug e os teclados de Krug fazem o mesmo nas músicas de Boeckner.  A faixa inicial (Soldier’s Grin) já demonstra isso, com os acordes iniciais de Krug entregando a música para o vocal rasgado de Boeckner.  Language City começa com a força de Dan, no meio do caminho muda de direção e passa a atacar com as teclas de Spencer, para depois ainda mesclar ambos e terminar em um clímax que talvez nenhuma música do primeiro disco consiga atingir, mas que é frequente neste álbum.  California Dreamer, no meio do álbum, traz um refrão que pode ser gritado em shows, ou daqueles para ser pego sem nenhuma vergonha cantando sozinho, ouvindo o discman no ônibus ou no trem — “I think I might’ve heard you on the radio, but the radio waves are like snow”.

A trinca final é especialmente estarrecedora. Fine Young Cannibals traz um ritmo sincopado, devagar, mas não foge da obrigação de levar braços distraídos a tocar air guitar em meio à audição. An Animal In Your Care é talvez a mais linda e honesta composição sobre relacionamentos desde Tender do Blur, com a vantagem de não soar tão brega em uma segunda análise. A música cresce junto com a narração, parece acalmar com leves acordes de piano, mas pula logo em seguida ao mesclar a guitarra de Boeckner entrando em um ritmo quase hinário antes de atingir acordes psicodélicos próximo ao final. Tudo isso pouco mais de quatro minutos. A última coda, Kissing The Beehive, começa com um punk-rock ritmado, dançante, entra em um anti-clímax quase que contestando este primeiro momento, e a partir daí constrói duas sequências crescentes distintas, uma após a outra, gerando dois momentos diferentes de clímax e refrão. Quando parece que tudo acabou, a música retoma a força ainda mais uma vez, para mais um coro de “oohs” e ao acabar de verdade a única reação possível é começar de novo para tentar entender o que foi perdido no meio disso tudo.

At Mount Zoomer é um disco de camadas a serem descascadas.  Um disco que merece repetidas audições antes mesmo de se formar uma opinião sobre ele.   Enfim, uma obra de arte esperando o reconhecimento que talvez só apareça com evidência nas listas de melhores no final do ano.

Esperemos que essa evolução continue e que, quem sabe com menos alarde ainda, Wolf Parade permaneça neste patamar invejável de produção.  Se for necessário esperar mais três anos para isso, vale a pena.



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