
No livro O filho eterno, Cristóvão Tezza, ganhador dos Prêmios Portugal Telecom, Bravo! Prime, Jabuti, APCA e São Paulo de Literatura, utiliza frequentemente a frase “nada do que não foi poderia ter sido”. O narrador desse romance-autobiográfico refere-se à inutilidade da vontade perante situações concretas, sobrando ao individuo a necessidade de se conformar com o inexorável destino. Pessimismo? O narrador parece mais realista a porta-voz do sentido trágico da vida.
Em entrevista à Revista da Cultura, edição 24, Tezza disse que, ao ler trechos de O filho eterno, “sente algumas pontadas de estranheza, de uma espécie de duplo.” A sinceridade com que foi produzido o livro talvez explique sua afirmação. A obra narra a trajetória de um pai que se vê com um filho portador da Síndrome de Down, apontando todos os sofrimentos, sensações e decepções do narrador que foi imbuído pelo “destino” a cuidar de uma criança deficiente.
As frustrações desse pai são expostas em sua totalidade. Por esse motivo, em certos momentos do livro, a narrativa soa preconceituosa, despertando no leitor uma inquietação, como se aquilo que lê fosse proibido dizer. Por revelar sem receios o que todos se esforçam para esconder, O filho eterno torna-se mais um romance contemporâneo que merece ser lido.
A questão é antiga. Existirá vida em outros planetas? Para muitos céticos, todos os fenômenos envolvendo objetos, luzes e quaisquer coisas “anormais” podem ser explicados de forma bastante racional; para os iniciados, aqueles que já entraram em contato com as “criaturas esquálidas, cinzas e cabeçudas”, a existência de vida fora do planeta Terra é fato.
O filme Contatos de 4º grau narra acontecimentos “fora do comum” em uma cidade do Alasca, chamada Nome, onde alguns moradores procuram ajuda de uma psicóloga para tentar esclarecer estranhos episódios que lhes ocorrem: durante a madrugada, por volta das 3h, eles acordam apavorados e veem em suas janelas uma coruja branca. Coincidência? Aparentemente não! Por meio da hipnose, descobre-se que a ligação entre as diferentes vítimas está muito além da compreensão humana.
Um interessante recurso usado pelo diretor é que, logo no início do filme, a atriz principal afirma que todas as cenas são reconstituições daquilo que realmente aconteceu. Cenas reais, gravadas durante as consultas da psicóloga com as vítimas, são constantemente usadas para embasar o longa-metragem. Os fatos narrados são aparentemente verídicos e, por isso, mais perturbadores. Um filme surpreendente e que vale a pena assistir.


“Buzina de automóvel. Rumor de derrapagem violenta. Som de vidraças partidas. Silêncio…”
É com a cena caótica descrita acima que Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues, inicia. A história de Alaíde é narrada sem a linearidade comumente usada: começa do fim, parte para o início, retoma o final… Encenada pela primeira vez em 1963, o caráter de vanguarda da peça sempre trouxe dificuldades para sua encenação.
Rompendo com as tradições cênicas, Nelson incorporou à sua dramaturgia a simultaneidade temporal. Nessa obra, o dramaturgo descreve concomitantemente o plano da realidade, o da alucinação e o da memória. Segundo Carmine Martuscello, em seu livro O teatro de Nelson Rodrigues, “(…) a peça Vestido de noiva desestrutura e reestrutura o cenário tradicional, conduzindo os espectadores por uma viagem ao interior da mente e da memória humanas. É uma memória que ao mesmo tempo se agrega e se desagrega”.
O escritor utilizava como tinta para sua pena os desejos mais sombrios das personagens. O autor de O beijo no asfalto desnuda o âmago do ser humano, evidenciando todas as suas vontades subterrâneas mascaradas por um véu de boas maneiras. Chamado inúmeras vezes de ‘O Shakespeare Brasileiro’, Nelson Rodrigues figura entre os mais célebres autores teatrais e é considerado por muitos críticos como um divisor de águas do teatro brasileiro.

Quando as férias se aproximam, novos livros assumem a cabeceira da cama numa tentativa de recuperar o tempo perdido. Obras que não puderam ser lidas durante o ano se aglomeram numa pilha que dificilmente conseguiremos terminar ou, muitas vezes, sequer iniciar. Sejam os livros grandes clássicos da literatura ou best sellers, a vontade geralmente supera a possibilidade.
Frustradas ou não, “férias literárias” são intelectualmente saborosas e podemos desfrutá-las sem moderação, seguindo a tendência de exageros que costuma acompanhar esse período. Para engordar um pouco mais a lista de “livros a ler” ou mesmo criá-la, sugiro os essenciais Crime e castigo e Os irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski, que são verdadeiras obras-primas desse gênio da literatura. Outro livro indispensável é Aparição, do autor português Vergílio Ferreira. Se ainda houver fôlego, Angústia, de Graciliano Ramos, é uma ótima ideia pra continuar sua maratona. Para fechar as férias com chave de ouro, O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago.
Diante de tantos livros que amigos, professores e a mídia nos recomendam, a vida até parece curta, mas o importante é aproveitar e não desanimar se, por mais um ano, a lista for maior que o olho. Boa leitura!
“Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheias nas lezírias”. (início do livro do romancista, dramaturgo e poeta José Saramago)
O heterônimo horaciano de Fernando Pessoa representa o aspecto clássico de sua obra. Dono de um olhar perspicaz e cético, o poeta contempla a representação das pessoas e o espetáculo por elas produzido. Por meio de uma singular linguagem, Saramago nos revela o último ano de vida de Ricardo Reis. Encontros dele com o já então morto Fernando Pessoa oferecem ao leitor diálogos ricos e profundos.
Vindo do Brasil, Ricardo Reis depara-se com uma Lisboa macilenta e diferente daquela que conhecera anos antes de se autoexilar na antiga colônia. Em meio à ditadura salazarista e à prenunciação da Segunda Guerra Mundial, o poeta monarquista vê-se estranho em um país cujo governo impõe a seus habitantes regras e preceitos morais, chegando a ser “convidado” pela polícia a prestar depoimentos sobre seu suposto envolvimento com os revoltosos no Brasil e em Portugal. Seu deslocamento, no entanto, deve-se mais à sua postura diante das mazelas do mundo do que à realidade portuguesa durante a ditadura de Salazar.
Todas as dificuldades vividas por Ricardo Reis são brilhantemente descritas por José Saramago, por meio de uma narrativa ímpar, cuja pontuação, ou a ausência dela, é o que mais chama a atenção dos leitores, e confere ao texto um ritmo próprio. Características que tornam O ano da morte de Ricardo Reis leitura indispensável àqueles que apreciam a boa literatura.
Influência para Nietzsche e Freud, Dostoiévski é considerado um dos maiores escritores do século XIX. Suas obras ganharam novas traduções recentemente, assim como os trabalhos de alguns de seus “companheiros russos” (Púchkin, Tolstói e cia.).
As novas edições desses grandes clássicos da literatura receberam textos críticos de grandes nomes, como Paulo Bezerra e Boris Schnaiderman. É o caso de Memórias do Subsolo. A obra é o desabafo angustiante de um homem que critica os “homens de ação” de sua época. A estes, o narrador-personagem ataca o modo como se subordinam às leis da natureza e creem no “belo e sublime” de Kant, tomando isto como única verdade.
Dostoiévski escreveu Memórias na cabeceira de morte de sua primeira esposa, vítima de tuberculose: fato que talvez explique o tom pessimista que livro possui.
O próprio Nietzsche, em uma carta a um de seus amigos, escrevera sobre o livro: “A voz do sangue (como denominá-lo de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites”.
As primeiras palavras de Memórias do Subsolo revelam a contundência do discurso do personagem: “Sou um homem doente… Um homem mau. Um homem desagradável…”
Vale a pena ler esse clássico da literatura!