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Author Archive for Kelly de Souza

Malu Mader fala de sua experiência como diretora

malu-maderO que forma um cineasta? Uns apostam na técnica, alguns, na vocação, outros, na experiência humana. Habituada a estar em frente às câmeras, com mais de 25 anos de atuação, Malu Mader inverteu os papéis e estreou, em 2008, Contratempo, seu primeiro filme como diretora, em parceria com Mini Kerti. A atriz, que não passou ilesa à pergunta, não titubeou em responder: “O que influencia meu trabalho de cineasta é a vida”. Ou, em outras palavras, o olhar que se tem sobre ela. “Não é só questão de técnica, recursos ou tema, e sim de forma. Se você tiver um olhar original, inteligente, amoroso ou, quem sabe, genial, vai fazer a diferença”, explicou Malu na edição desse mês da Revista da Cultura (leia matéria completa aqui), além de apresentar seus filmes e diretores preferidos.

Abaixo, ouça um trecho da entrevista de Malu Mader ao Blog da Cultura.

Filme nacional ainda encontra dificuldade de exibição

lirio-ferreira21O “duelo” entre tradição e modernidade é uma questão frequente nos filmes de Lírio Ferreira. Além de “O homem que engarrafava nuvens”, que estreou recentemente nos cinemas (leia matéria completa na Revista da Cultura deste mês), o cineasta também dirigiu Árido Movie, Cartola e Baile Perfumado. Não importa a temática, todos trazem uma espécie de diálogo entre passado e presente. Lírio justifica: “o cinema brasileiro é a cara do Brasil, retratando as contradições entre tradição e modernidade e todo o seu paradoxo”. Esse não é o único paradoxo que preocupa o cineasta. A exibição dos filmes nacionais, que difere da produção “blockbuster”, é a principal dificuldade (e desafio) para quem faz cinema atualmente no Brasil.

Com pouco mais de duas mil salas no país, as produções nacionais disputam espaço com as americanas (a exemplo de Avatar) que podem “ocupar” 600, 700 salas para um único filme. O restante é disputado entre outras produções internacionais e os filmes brasileiros, que geralmente ficam sem espaço. “É uma concorrência desleal e imoral. Como se inventassem um carro que custasse R$ 200,00 e soltassem 2 milhões deles aqui em São Paulo. Não vai ter rua para estes carros”, explica Lírio, que defende uma cobrança diferenciada quando se trata de um grande número de cópias.

A questão é tão preocupante que o presidente Lula assinou, no último 30 de dezembro, o decreto 7.061/2009 que estabelece a cota mínima de dois filmes brasileiros diferentes e 28 dias de exibição nos complexos comerciais de cinema em 2010. O objetivo é promover a auto-sustentabilidade da indústria e o aumento da produção cinematográfica brasileira. Para o diretor da Ancine, Mário Diamante, a cota de tela é sem dúvida a principal ferramenta para ajudar na expansão do cinema brasileiro. “De certa forma, o que está sendo feito hoje é o que os estúdios norte-americanos fazem, por isso que eles já planejam com longo prazo o lançamento dos seus filmes”, disse à Agência Brasil.

Em entrevista ao Blog da Cultura, o diretor Lírio Ferreira explicou a questão.

Ed Motta lança “Piquenique”, seu décimo álbum

edmotta-fotodaryandorellesNarrativas de quadrinhos, humor, cinema noir e amor. É com essa combinação que o cantor, compositor e multi-instrumentista Ed Motta lança Piquenique, seu décimo álbum de carreira. Transitar pelos diversos estilos musicais não é novidade para o músico que, além do pop, traz na bagagem composições instrumentais, trilha para cinema e teatro, entre outras. O álbum traz outra novidade: a estreia da esposa, Edna Lopes, na composição de onze das doze letras de Piquenique. Ela é casada com o músico há quase 20 anos e assina desde 92 o projeto gráfico dos CDs e cenários dos shows de Motta. Na edição deste mês da Revista da Cultura, Ed Motta fala do novo trabalho e aponta discos que se tornaram referência para o seu trabalho. (leia matéria completa aqui).

Abaixo, ouça um trecho da entrevista em que fala do novo álbum (o mais pop de sua carreira) e da parceria com a esposa Edna Lopes.

O homem que engarrafava nuvens

caricatura-humberto-teixeiraNa mansão Mandalai, construída nos arredores do bairro de São Conrado (RJ) – perto das montanhas, da floresta e da Pedra da Gávea –, as nuvens ficam tão baixas que é possível tocá-las. Lá, uma menina viu o pai repetir dezenas de vezes, quando questionado se havia abandonado a vida pública, que continuava compondo, mas “o que gostava mesmo era de ficar ali com a filha, engarrafando nuvens”.

Foi no rastro dessas nuvens que a atriz Denise Dummont iniciou sua jornada em busca da história desse homem e de toda uma época marcada pelo ritmo contagiante das sanfonas. O resultado dessa odisseia pode ser visto no documentário “O homem que engarrafava nuvens”, de Lírio Ferreira, que estreou nos cinemas em circuito nacional e que conta a história do baião por meio da vida e obra do compositor cearense Humberto Teixeira, autor de clássicos como “Asa branca” e “Adeus, Maria Fulô”. Para Denise, ele era apenas “papai”; para o mundo musical, o “doutor” do baião.

Na Revista da Cultura deste mês, Denise fala sobre o processo de quase uma década para a realização do documentário (leia a matéria completa sobre o filme aqui), que contou com inúmeros depoimentos de artistas nacionais e internacionais, como David Byrne, da banda Talking Heads. Abaixo, confira a entrevista exclusiva ao Blog da Cultura, em que conta um pouco mais da relação com seu pai, Humberto Teixeira.

Você inicia o documentário dizendo que essa jornada, além de mostrar a história do Baião através do compositor Humberto Teixeira, também tinha o objetivo de descobrir um pouco mais sobre seu pai. A imagem que você tinha mudou depois do filme? Mudou, ficou mais abrangente porque houve muita pesquisa. Não acredito que na vida a gente descubra integralmente quem é alguém, mas, descobri muitas coisas e fiquei feliz com as descobertas porque ele era um cara legal, um homem de bem. Podia ter descoberto coisas horríveis, mas não. Então, foi muito bom nesse sentido.

O que mudou em sua visão? Não tinha noção da real importância de sua obra na poesia, na música, e da influência que teve como deputado federal, escrevendo leis que protegiam os artistas, autores, entre outras coisas. Além disso, criou caravanas e levou os artistas e nossa música para o resto do mundo. Ele trabalhava em várias frentes e isso foi muito bacana descobrir. Me sinto feliz porque parti nessa viagem de descoberta e sai satisfeita. Em relação à vida pessoal, não foi um filme de exaltação, e sim de pesquisa. O filme quem dirigiu foi o Lírio [Ferreira] e em nenhum momento eu disse que se ele descobrisse alguma miséria não poderia colocar porque é meu pai. Não descobrimos nada além dele ser um machão nordestino. E, com isso, consigo conviver numa boa.

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Palco dizima a falácia do inacessível literário

pauloscottA busca do contato entre leitores e autores tem longa tradição. Os festivais que transformam a literatura em espetáculo, outrora realizados por meio de saraus literários, ganham novos contornos e a exposição da literatura no palco tem se tornado solução natural no contexto das novas tecnologias e da busca de novas linguagens. No Brasil, onde a oralidade tem forte apelo, essas iniciativas têm conseguido desmitificar a velha imagem da literatura como espaço exclusivo de alguns poucos privilegiados, dos eruditos, dos iluminados – como explica o escritor Paulo Scott (Ainda orangotangos, Voláteis), criador dos projetos PóQUET: Escritores que Tocam, Músicos que Escrevem; Vocabulário (com Chacal, Marcelino Freire e Marcelo Montenegro), entre outros.

Na Revista da Cultura deste mês, Scott (www.pauloscott.wordpress.com) revela os livros (leia aqui) com os quais dialogará em seu próximo trabalho. Abaixo, confira a entrevista exclusiva ao Blog da Cultura, em que conta que levar ao palco o texto literário, em conjunto com o teatro, a dança e a música, dizima a falácia do inacessível literário.
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A busca do contato com autores tem longa tradição, e vem desde os fechados saraus literários. Hoje, essa experiência vem se tornando comum e traz à tona – mais uma vez – a busca pela oralidade. Você, ao lado de outros como André Sant’Anna, Chacal, Marcelino Freire, é um dos autores contemporâneos que mais tem incentivado a “literatura nos palcos”. É possível que essa experiência (de unir autores e público) se amplie para uma massa maior de leitores? Essa possibilidade existe, mas não é necessariamente uma condição; há outros caminhos que podem ampliar o espectro de leitores – e podem fazê-lo até com mais eficácia. Ocorre que num país como o nosso, onde a oralidade tem um apelo tão forte, funcionando como verdadeiro catalisador no câmbio entre tantas e diversas culturas sociais, iniciativas como essas conseguem, de maneira rápida e honesta (arrisco o adjetivo), desmistificar a velha imagem da literatura como espaço exclusivo de alguns privilegiados, dos eruditos, dos iluminados. Como venho de classe social baixa, essa distância sempre me incomodou. Tenho certeza de que a lacuna se resolverá pela educação escolar de qualidade; mas enquanto isso não se verificar, sinceramente, não vejo motivo para o escritor omitir-se. Observe que não falo de militância pura e simples, mas da vontade de contribuir para que se desfaça, para todos e o mais rápido possível, uma e outra falácia em torno do inacessível literário.

Penso que, muito além do culto à oralidade, nos meus projetos, ganha relevo a transposição da literatura (em seu sentido mais estrito), já que extrapola a relação escritor-leitor, com outros meios, outras plataformas de expressão, outras tecnologias – nas óperas já se encontrava pretensão semelhante. O grande desafio, que atinge autores como André Sant’Anna e Marcelino Freire, é o de como envolver ainda mais os que se interessam pela arte e queiram enfrentá-la, mesmo que eventualmente.

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Rosa Lobato, poesia e esquinas que se foram

Nesta última terça-feira faleceu em Lisboa, aos 77 anos, a escritora e atriz portuguesa Rosa Lobato de Faria. Deixou vários romances, entre eles, “As Esquinas do Tempo”, lançado aqui ano passado. Rosa narra a lírica história de uma professora de matemática que descobre num quarto de hotel uma tela em óleo de um homem parecido com seu atual amor. Eis que no dia seguinte, de súbito, ela sai do ano de 2008, onde estava, e acorda em 1908, na casa de parentes distantes. Perplexa, atônita, e cem anos antes, Margarida se aborrece com essa nova realidade, mas acaba conhecendo o homem do quadro, e por ele se apaixona.

Um acidente inverte o processo, com ela voltando ao tempo atual. Segundo Rosa, a ideia do livro surgiu após pernoitar em uma pousada. “A casa estava tal e qual era no início do século. O quarto onde fiquei estava cheio de fotografias antigas, tudo ali tinha o sabor de outros tempos. Deitei-me e naquele lusco-fusco pensei que seria engraçado adormecer e acordar 100 anos atrás, no tempo do quarto. Imediatamente veio a ideia de escrever a história”, contou Rosa, logo após o lançamento do livro. A obra teve um sucesso comercial imediato em Portugal.

Romancista, poetisa, atriz, letrista, autora infantil, Rosa estreou como locutora da RTP na década de 60, sendo que em 1983 integrou o elenco da primeira novela portuguesa, “Vila Faia”. Mas começou a escrever romance tarde, aos 63 anos, sendo sua primeira obra “O Pranto de Lúcifer” (1995). Já publicara antes vários volumes de poesia (”Os Deuses de Pedra” (1983), “As Pequenas Palavras” (1987), “Poemas Escolhidos e Dispersos” (1997), “A Gaveta de Baixo” (1999), etc.). Como romancista publicou “Os Pássaros de Seda” (1996), “Romance de Cordélia” (1998), “A Flor do Sal” (2005), “A Estrela de Gonçalo Enes” (2007), dentre tantos, além de ter assinado vários livros infantis.

Rosa escrevia tudo a mão, sem computadores ou maquinas de escrever: “tenho uma ligação afetiva com a minha letra. Se não estiver boa, não escrevo”. “As Esquinas do Tempo” foi seu último trabalho publicado, mas a Editora Leya anunciou ontem que lançará na próxima semana “A Menina e o Cisne”, novo livro da autora. Termino com o Poema “A Vida num Sonho”, de Rosa Lobato Faria.

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Encantador de Cães, e de público

cesar-millan2Cesar Millan tem 41 anos, é instrutor de cães, tem um programa semanal no National Geographic Channel chamado “O Encantador de Cães” (aqui passa pelo Animal Planet), possui uma clínica de recuperação canina em Los Angeles (Dog Psychology Center), uma revista mensal (Cesar’s Way) e é autor de vários livros, entre eles “O Encantador de Cães”, publicado aqui em 2007.

Millan está se transformando num ícone da mídia, e não sem motivos. Mexicano, fez o que fazem milhares de seus compatriotas todos os anos: atravessou ilegalmente a fronteira para os EUA. Tinha 18 anos, nenhum dinheiro no bolso, não falava Inglês e não conhecia nada e ninguém na América.

Desde logo começou a vender seus serviços de adestramento, de porta em porta, por alguns trocados, levantando o suficiente para ir sobrevivendo. Aos poucos foi conhecendo pessoas mais importantes, com mais dinheiro, com cães mais abusados, mal educados, e Cesar foi impondo respeito (trabalha com cães desde criança). O tempo passou, fundou uma pequena academia, depois outra maior, foi se especializando, trabalhando duro, aprendeu inglês, adestrou cães de celebridades, foi estudando técnicas de apresentação, e mais que tudo, foi encantando os cães e seus donos.

Em 2004 fez um piloto do programa “O Encantador de Cães”, e o sucesso não veio de imediato, mas aos poucos, lentamente, como tudo o que Millan faz, mas em 2006, 2007 e 2009 sua série já era nominada para ganhar o Emmy. Em 2000, conseguiu residir legalmente na América, e em 2009 tornou-se cidadão norte-americano. Autodidata, foi se impondo e mostrando que sem precisar ser gênio, ou PHD, era possível dominar os cães e levá-los a uma melhor convivência com seus “patrões”. Aliás, quem vê o programa logo percebe que o problema nunca está nos cães, mas quase sempre nos donos. Chega a ser irritante a forma como as pessoas não sabem lidar com sua “prole canina”, mimando, superprotegendo, ou incitando-os a serem desobedientes. Millan, com uma calma budista, vai mostrando na TV que às vezes é o dono que precisa ser “adestrado”.

Sua influência cresceu tanto que no final do ano passado o jornal The New York Times publicou artigo de Alex Williams (“Becoming the Alpha Dog in Your Own Home”) explicando que vários pais estavam utilizando as técnicas em adestramento de Millan para educar seus próprios filhos, com bons resultados. Sua estratégia é simples e está centrada em três eixos: exercícios, disciplina e afeto. Óbvio que não foi Millan que inventou essa forma de adestramento, mas seu poder de comunicação (às vezes um pouco cabotino) torna tudo muito efetivo.

Seu programa já é visto por mais de 11 milhões de espectadores a cada semana, seus livros já venderam mais de 2 milhões de cópias e seu site (cesarmillaninc.com) recebe mais de 400 mil visitas mensais. De acordo com MPH Entertainment, a produtora que é sócia de Millan em todas suas realizações, seu negócio deve chegar logo a 100 milhões de dólares. Nada mal para um mexicano, cristão, casado, dois filhos e que atua de maneira intensa em várias causas filantrópicas (como todo bom americano bem-sucedido). Millan é uma prova real de que a América continua a ser um templo do self-made men.

NASA calou os lunáticos

lua2Maldade o que fizeram! Inconcebível o anúncio feito esta semana pela NASA, cancelando o Programa Constellation e abortando as tentativas de voltar à Lua. É intolerável tirar de milhões de leitores a fantasia de recolocar o homem na Lua. Disse o porta-voz, sem a menor cerimônia (não houve lágrimas, emoção, misericórdia), que com o cancelamento do programa os EUA não terão mais tecnologia doméstica para levar astronautas para o espaço. Isso não se faz! Não se maltrata assim tantos leitores e escritores impunemente.

O que fará a legião de seguidores de Isaac Asimov sem o sonho do homem na Lua? E nossas fantasias de ainda encontrar um ETezinho perdido no maior satélite natural do Sistema Solar? E não é só isso, não se pensou no outro lado quando se tomou essa radical decisão: o que farão os ETs lunares que leem Carl Sagan todas as manhas em suas crateras-home? Que maldade com a galáxia!

Já vejo milhares de senhores, senhoras, jovens, punks, viciados (em livros), executivos de Hollywood, profetas de seitas futuristas, políticos em campanha (“meus amigos, prometo que a Lua será nossa em 2020!”), todos amargurados, chorando aos pés, digo, às páginas de Ray Bradbury e pedindo clemência a NASA, pedindo mais uma chance, mais um bilhãozinho para novas travessuras lunares… Antevejo fanáticos de Ray Cummings, unidos, pungidos, sofridos por perder o seu “kit-fantasia-lunar”, caminhando inconformados depois de roubarem seu sonho lunar…

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Verdades que Tomás Eloy Martínez deixou

“La literatura es un juego entre verdad y mentira, y que lo importante no es qué es verdad o mentira, lo importante es el juego”. Assim escreveu Tomás Eloy Martínez em sua obra “Santa Evita”, lançada em 1995, traduzida para mais de 25 idiomas e publicada em mais de 30 países, sendo um dos mais deslumbrantes romances da língua hispânica. Tomás morreu domingo, em Buenos Aires, aos 75 anos de idade. Mestre em Literatura Espanhola pela Universidade de Paris, Tomás foi um dos mais brilhantes autores argentinos das últimas três décadas. Jornalista, roteirista, romancista e crítico de cinema, esse incansável intelectual lutou em todas as frentes, em todas as batalhas, em todas as trincheiras, mas perdeu sua última luta: um câncer devastador.

Fez de tudo um pouco na vida, e tudo que fez nunca fez sem talento. Entre 1975 e 1983 viveu exilado na Europa e em Caracas, onde fundou o jornal El Diario de Caracas. Sua fuga deveu-se às ameaças da famosa Triple A (organização paramilitar ultradireitista e anticomunista), que colocava medo em qualquer intelectual nos tempos de Isabel Perón. Foi professor ativo da Universidade de Maryland, da Rutgers University e recebeu “honoris causa” de várias Universidades. Em 2009 recebeu o prêmio “Ortega y Gasset” de jornalismo, entregue pelo jornal espanhol “El País”.

Mas foi como escritor que ele mais se aproximou de sua luta e de seus ideais. Premiado inúmeras vezes, incluindo o importante Prêmio Alfaguara, em 2002, Tomás foi um dos mais importantes autores argentinos de seu tempo, narrando sempre o tortuoso caminho da democracia de seu país. Em seu livro “La Pasión Según Trelew” (1973), relato jornalístico arrebatador, comprou guerra com a elite militar que ocupava o poder na Argentina, sendo que está mandou queimar o livro. Em 1985, publica “O Romance de Perón”, em que disseca as mentiras, falácias e fantasias que sustentavam o presidente Perón e seu secretário López Rega (El Bruxo), uma figura saída das piores catacumbas políticas da época. Em 2002, publica “O Voo da Rainha”, um mix de realidade e ficção mostrando a corrupção nos altos escalões do governo. Em “O Cantor de Tango” Tomás narra a busca de um intelectual de Nova York por um cantor que mantivesse ainda as raízes do tango. Tudo se passa em Buenos Aires, no ano de 2001, dentro de um ambiente de grande tensão social pelo qual a Argentina passou naquele período.

Em seu último livro, “Purgatório“, a protagonista também está em busca, só que desta vez procura o companheiro desaparecido há mais de 30 anos, reencontrando-o sem que este tenha envelhecido. Em 2009, em entrevista a Folha de São Paulo sobre o livro, Tomás declarou: “o exílio e o purgatório têm muito em comum. Em ambos, a essência é a espera. Uma espera que parece infinita, mas que é, ao mesmo tempo, cheia de esperança“.

Tomás nunca deixou de ser lutador, dos bons. A América Latina perdeu um de seus maiores guerreiros, a Argentina perdeu uma de suas mais importantes vozes republicanas e o mundo da literatura perdeu um exímio romancista.

Mandela em filme, mas ainda pouco em livro

conquistandoNelson Mandela é tema do mais recente filme de Clint Eastwood (“Invictus”), inspirado na obra “Conquistando o Inimigo”, do jornalista britânico John Carlin, que morou na África do Sul na década de 90, onde foi correspondente do jornal The Independent, época em que conversou várias vezes com Mandela. Ainda não vi o filme, nem tive a oportunidade de ler o livro, mas tenho a sorte de viver na mesma época em que vive Nelson Mandela. Pude ler muito sobre ele, sobre sua luta e sobre seu trabalho, mas quase tudo que li foi pela mídia, ou pela Internet. Infelizmente muito pouco de sua vida está disponível em literatura publicada em nosso país.

O mês de fevereiro, que começa hoje, tem um dia especial. Em 11 de fevereiro de 1990, portanto há 20 anos, Nelson Mandela foi libertado depois de 27 anos de cárcere. Foi um dia inesquecível. Seu andar lento ao sair da prisão de Verster Victor mostrava que algo novo estava acontecendo no mundo, algo importante, severo e transformador. Sua face tranquila e seus acenos emocionados daquele dia estão até hoje guardados na memória de todos (veja vídeo abaixo). Será uma data comemorada na África do Sul e retratada pela mídia mundial. Deveria ser.

Mandela é um dos mais importantes personagens do século XX, mas, poucas biografias foram publicadas aqui, principalmente se compararmos com o que existe em língua inglesa (confira aqui). “Nelson Mandela - Uma Lição de Vida”, (leia o primeiro capítulo no site da Livraria Cultura) do ex-ministro da cultura da França, Jack Lang, é um exemplo (bom) do que podemos achar no Brasil. “Nelson Mandela - A Luta Da Minha Vida”, e “Longo Caminho Para a Liberdade”, autobiografias, também estão disponíveis, embora a última só tenha sido lançada em Portugal. Outra obra com textos do próprio é “Vencer é Possível”, uma coletânea de seus artigos, selecionados pelo filósofo Emir Sader, no qual Mandela discute os problemas para a edificação de uma democracia sem exclusão social e racial.

Nelson Mandela está doente e tem 91 anos de idade. Talvez as publicações venham com a Copa do Mundo deste ano na África, ou com os vinte anos de sua libertação, ou quem sabe quando ele desaparecer. Não sei. Temos publicados por aqui mais livros sobre Michael Jackson do que sobre Nelson Mandela. Nada contra o primeiro, só inconformismo pelo pouco que temos em português sobre o segundo .



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