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Author Archive for Pinna (Cultura/Brasília)

Mais um Sándor Márai pela Companhia das Letras

É impressionante como pequenos acontecimentos do cotidiano reverberam pela nossa vida afora num movimento impossível de conter e belo de observar.

Há alguns anos eu trabalhava em outra livraria e atendia uma cliente que buscava algo novo para ler. Perguntei qual o último livro de que gostara e nem um traço de dúvida passou pelo seu rosto. Sumiu da minha vista por alguns segundos. Enquanto a esperava pensei que os papéis estavam ligeiramente invertidos e cheguei a conclusão de que esta inversão era bastante saudável. A mulher retornou com a resposta em mãos:

“Este é o melhor livro que li nos últimos anos.”

E me entregou.

O título era  “As brasas”, de Sándor Márai.

Na época não cheguei a ler. Tenho essa sensação de que livros e pessoas se encontram e desencontram como amantes, há momentos em que ninguém nos serve e há outros em que qualquer um serviria. Naquele em especial, o tal autor húngaro não se encaixava.

No início deste ano, no entanto, já trabalhando na Cultura, o livro caiu em minhas mãos novamente. E o engoli. É um livro lindo, desde as descrições até as falas, cada personagem perfeitamente desenhado. A principal ação da história é uma conversa entre dois senhores que há muito não se viam e que muito tinham a acertar. Não é um assunto leve. Mas a conversa flui como poucas que experimentamos, aquelas conversas nas quais a noite acaba tão rápido que a despedida já é nostalgia.

Pois bem, ontem peguei o último romance deste autor que a Companhia das Letras publicou, “Libertação”, e fiquei ainda mais impressionada com o que ele teve a dizer. Se o primeiro tratava de relações humanas este trata da matéria prima do homem, do que é o humano, da razão pela qual nos matamos e tememos.

Não é um livro de batalhas épicas. Quase tudo se passa em um mesmo ambiente e penso nisso como um traço forte da literatura de Márai. Apesar do cenário da ação ser Budapeste durante a tomada pelos russos, o foco da narrativa é a ação interna dos personagens. E do que se trata neste espaço recluso é monumental.  É o ser humano redescobrindo-se como tal e questionando-se. Uma moça que se transforma até o final do livro de maneira crua e pungente. Li em uma única sentada, se me permitem a expressão rude.  E permaneci  na cadeira, olhando para o nada, depois que as últimas palavras ecoaram na minha cabeça.

Uma inquietação arrebatadora.

Abraços

Bons sonhos

Sempre gostei de tomar meu Nescau de uma vez só.

Minha mãe ficava histérica. Minha avó só achava graça. A caneca cobria metade do meu rosto, só ficava de fora o bigode de chocolate e as duas bolotas dos olhos para lá e para cá se divertindo com o drama materno. “Pára pra respirar menina! Vai morrer asfixiada!” E eu ria sem parar de “gulp, gulp”.

Gosto de ler cada livro como se fosse uma caneca gigante de Nescau: De uma vez só, sem respirar. E isso está me dando insônia. Porque chego da livraria às sete, vou começar a ler às oito e só vou deitar às duas. Daí penso na história até as três, rolo até às três e quinze e dormir mesmo só às quatro. Tudo isso pra acordar três horas depois. Brabo.

Há ainda a questão óbvia de que nem assim consigo terminar um livro grande de uma tacada. Quando estou de folga ótimo, acordo e já emendo. Mas a vida é dura e ter que trabalhar no meio da história não é legal. Algumas soluções possíveis:

  • Ler apenas contos e livros curtos.

  • Ler um livro tão longo que a distância do final faça brotar resignação no meu coração.

  • Ler livros chatos na cama para apagar no lugar certo.

  • Parar de ler e gastar o tempo malhando.

Para esta noite, nenhuma das respostas anteriores.

Acabei relendo um HQ lindo e singelo que amo de paixão chamado “12 razões para amá-la”. É curtinho e faz você ter lindos sonhos. Para quem gostou do “500 dias com ela”, que ainda está em cartaz, a estrutura narrativa lembra bastante. E se você conseguir baixar as músicas indicadas em cada capítulo para ouvir junto… Bem, aí você não precisa de mais nada.

Bons sonhos e beijos insônes,

Rita

Lendo fantasia para evitar o Prozac

Este é um post grande. Inspire, expire e tome tudo num gole só.

z1589283971Como vocês devem ter notado, eu não segui o conselho do Murakami de escrever um pouquinho todo dia e abandonei o blog por meses. Também não comecei a correr em maratonas e, na verdade, estou cogitando largar a academia. É, o cotidiano pode ser muito triste, não é verdade? E é por isso que lemos fantasia, histórias que nos transportam para um mundo diferente do nosso. Um lugar onde não somos apenas comuns e tolos, mas heróis que podem salvar a humanidade. Tolkien constrói universos como esse, assim como Stephanie Meyer e Charlaine Harris (sim seu nerd preconceituoso, elas também). Vamos ver se vocês adivinham qual meu favorito.

O mundo de Tolkien é feito de batalhas épicas, raças fantásticas, personagens masculinos excelentes e umas poucas personagens femininas legais. Não se iluda com a Arwen da versão cinematográfica de “Senhor dos Anéis”: No livro ela é apenas uma princesa élfica dondoca esperando seu maridinho. A única que vale a pena é a Éowin e todos nós sabemos que ela não fica com o mocinho que ela queria no final. Mas até aí tudo bem porque como eu estava dizendo, há tantos personagens masculinos legais na história que mesmo a segunda opção da moça, Faramir, é uma boa empreitada. Enfim, é uma literatura que funciona mais para meninos do que para meninas (com exceção de algumas meninas bélicas e perturbadas tipo eu, mas isso é um detalhe).

z158928397b1Stephanie Meyer entretanto foi na fatia do bolo que pertence às garotas. Crepúsculo não é uma história de vampiros: é uma história de amor. Você espreme e não sai sangue, sai romantismo adolescente. O fato do galã ser vampiro só torna o “remake” de Romeu e Julieta ainda mais interessante.

E a Dona Meyer sabe o que está fazendo. Ela passa o primeiro livro construindo a relação do casal central e deixando todas as leitoras desesperadas por uma relação como aquela, viciadas na possibilidade de que uma menina comum como elas possa encontrar o amor verdadeiro (que já é um fetiche por si só), nos braços de um poderoso e bondoso (olha só o combo) vampiro.

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What I write about when I write about writing

about_running1Estou lendo este livro de memórias do Haruki Murakami e vários pensamentos incoerentes, mas divertidos, passam pela minha cabeça.

Pensamento 1: Por que quase sempre imaginamos escritores contemporâneos como modernetes raquíticos de óculos? Nunca tinha visto uma foto do Murakami - pasmem - e confesso que foi um choque descobrir que o distinto senhor corre maratonas e participa de triatlos - triatlos!!!! - com frequência. Meu Deus! E eu não consigo nem correr 10 minutinhos toda manhã! Juro que depois de ler sua preparação para a maratona de Nova York fiquei tão animada para entrar em forma que fui tentar correr aqui na quadra e não cheguei inteira nem na padaria, que é bem humilhantemente perto. Se depender de disposição atlética, meu futuro como escritora está arruinado.

Futuro como escritora. Outro pensamento que “pipocou” durante a leitura é sobre aqueles que eu livremente denominei “balzaquian born writers”. Explico. Tenho fé de que um dia, depois dos 30 anos, acordarei subitamente inspirada e escreverei um romance brilhante. E que a partir dai me tornarei uma “escritora de sucesso”. “Escritora de sucesso” é claro, não passa de um conceito variável, pessoal, e perfeitamente questionável. Enfim, um dia entrarei para o hall dos “comuns que viraram escritores depois dos trinta” e terei uma história de vida simples e genial para contar. E, o mais importante, ficarei rica.

Sim, é uma idéia estúpida. Mas a cabeça da gente é assim mesmo não é verdade? Cheia de idéias estupidas. E nós aqui torcendo para que, um dia, estas idéias estúpidas se tornem algo melhorzinho. Pode confessar, todo mundo já pensou em ser alguma coisa esdrúxula, não adianta fingir. Mas analisemos os fatos.

Haruki Murakami era dono de bar até que um dia resolveu que poderia escrever um romance. Enviou o manuscrito a uma revista literária, foi publicado, e dois romances depois largou o bar e foi viver só de literatura. Ele tinha trinta e poucos. Isabel Allende não era lá uma jornalista muito famosa até que a proximidade da morte de seu avô a motivou a escrever uma carta que culminou em “A Casa dos Espiritos”, não preciso contar o que aconteceu depois. Antonio Banderas, Winona Raider, blá blá blá. Essa já tinha 42, pra lá de balzaca. E, para finalizar polemicamente, Stephanie Meyer teve um sonho no ano do seu trigésimo aniversário e escreveu “Crepúsculo”. Quantos milhões de exemplares vendidos? Ok, ela pode não ser brilhante, mas ficou rica e quando preenche o campo de profissão do censo não tem duvida: escritora.

Enfim, entre tantas coisas bocós que passaram pela minha cabeça pensei também no que diabos um escritor japonês vai fazer no Havaí, por que as pessoas se matam para aguentar correr por quatro horas seguidas, quantos caminhões da Granero encheríamos com todos os exemplares de Crepúsculo já publicados, quem era aquele outro cara de óculos que eu achei que era o Murakami, etc.

E pensei também que poxa, até que esse livro é bem legal.

Aliás, o nome do livro é “What I talk about when I talk about running”.

E se ainda não leu o Murakami, “Minha querida sputnik” é genial.

Até.



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