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Author Archive for Rubem Prates (Cultura/PoA)

Frederic Chopin - 200 anos

Minha relação com Chopin começou relativamente tarde, quando eu já era estudante de música. Até então, eu o considerava apenas um melodista incorrigível, um romântico extremo sem nada de heroico, e que absolutamente jamais encontraria lugar entre os meus ídolos do momento, mesmo românticos, como Beethoven, Schubert,Schumann, Brahms e Wagner. Mas o motivo para tamanha indiferença teria que ter uma razão de ser, afinal, a importância musicológica de Chopin é inquestionável e permanece nova a duzentos anos. Chopin, alem de grande compositor, foi um pianista virtuose. Escondidas entre as simplicidades melódicas e harmônicas de algumas de suas peças, estão exigências técnicas enormes, incapazes de serem vencidas por pianistas desprovidos de talento. Em poucos compassos de uma de suas Mazurkas, por exemplo, encontramos indicações tais como con anima, dolcissimo, ritenuto, a tempo, sotto voce, mancando, sempre rallentando, assim como exigências constantes de pedal.
A música da escola romântica, e a música de Chopin especificamente, é difícil de se tocar não apenas pelos seus aspectos técnicos, mas principalmente, pelo seu caráter. A palavra sensibilidade, aqui, pode gerar contornos exageradamente desproporcionais e incontroláveis. A tendência de alguns solistas, ou mesmo regentes, é torná-la ainda mais romântica, com tempos arrastados, rubatos em excesso, dinâmica inadequada, e a música de Chopin é o veículo ideal para esse extravasamento exagerado de emoções; quando ele pede uma lágrima, apenas, chora-se convulsivamente.
Acostumado à linearilidade de Bach, ao rigorismo formal de Haydn, às exigências precisas de Beethoven, ao formalismo neoclássico de Brahms, tais exageros emotivos proporcionados por alguns intérpretes chopinianos, como Malcunzinski, Brailowski, ou mesmo o intérprete da trilha sonora de À Noite Sonhamos, Jose Iturbi, por exemplo, tornaram-me azedo com relação à sua música. Pelo seu caráter, pela sua facilidade em cantar, pelo seu romantismo quase feminino, Chopin é um dos compositores mais fáceis de se tocar mal. Foram necessários alguns anos de maturidade e aprendizado, e de escutas formais para que eu, finalmente, percebesse essas diferenças.
Hoje, recuperado o tempo perdido - e isso graças às mãos e à sensibilidade de um Claudio Arrau, um Maurizio Pollini, um Emanuel Ax, uma Maria João Pires e, é claro, um Arthur Rubinstein, talvez seu mais dedicado intérprete - Chopin, finalmente, tornou-se uma das minhas referências.

Hilary Hahn na Sociedadede Cultura Artística

O violino é o segundo instrumento mais fácil de se tocar mal - o primeiro é a flauta. Leva-se anos para se atingir uma sonoridade razoável, e que seja apenas aceitável. E toda uma vida em lapidá-la e moldá-la, até que atinja uma caractéristica própria que identifique o seu dono, tal qual uma impressão digital. E isso é apenas o começo. A parte técnica é das mais complexas, pois exige a interdependência das mãos. Enquanto uma coloca as notas, a mão esquerda, a outra, a direita, faz o instrumento cantar produzindo a sonoridade através do arco. Para quem almeja altitudes olímpicas como violinista, é impossível aprendê-lo sozinho, pois exige orientação segura e rigorosa disciplina. É um dos poucos instrumentos, juntamente com a flauta, cuja sonoridade pode identificar quem a executa, ao longo de uma escuta atenta. Podem existir dois pianistas iguais, mas jamais dois flautistas, dois violinistas.
Os séculos 19 e 20 foram pródigos na produção de gênios violinísticos, oriundos de uma longa linhagem de virtuoses desde que Paganini iniciou a tradição; Fritz Kreisler, Mischa Elman, Jascha Heifetz, Nathan Milstein, Yehudi Menuhin, Isaac Stern, David Oistrack (a meu ver o maior de todos), passando por Arthur Grumiaux, Zino Francescatti até chegar a Pinchas Zukerman, Itzhak Perlman, Joshua Bell, Gil Shahan
Foi então com grande expectativa que me dirigi à Sala Sao Paulo, ontem a noite - enquanto o Inter jogava seu destino contra o Coríthians no Pacaembu - para assistir o concerto promovido pela Sociedade de Cultura Artística. Afinal, sobre a estrela da noite, Hilary Hahn (foto), que jamais tinha vindo ao Brasil, diziam-se verdadeiros prodígios; os que a conheciam apenas através de CD, não escondiam seu entusiasmo com o tratamento que ela dera às Sonatas e Partitas de Bach, para violino solo. E para aqueles que esperavam apenas mais um desses jovens virtuoses ao estilo Lang Lang, de técnica deslumbrante e profundidade inversamente proporcional, o que se viu foi uma jovem artista em plena maturidade, digna representante de uma tradição em que os recursos técnicos são apenas um meio e não um fim em si próprio. More »

João Otávio Nogueira Leiria

Entre os centenários ilustres que ocorreram nesse 2008, está o de João Otávio Nogueira Leiria, advogado, jornalista, escritor e poeta gaucho. Nogueira Leiria pertence à geração de Mario Quintana, Aureliano de Figueiredo Pinto (o Príncipe dos Poeta Nativistas, no dizer de Jayme Caetano Braun),  de Cyro Martins, Dyonelio Machado e outros. Começou a se destacar por volta de 1928, com Campos de Areia, e depois com Rincões Perdidos, mas o trabalho pelo qual seu nome ganhou contornos épicos foi a tradução que fez do poema de treze capítulos que compõem Martin Fierro, peão andarilho, guasca falastrão, machista e mulherengo, criado por Jose Hernandez, em 1872, e espécie de ícone literário argentino. Nogueira Leiria, que faleceu em 1972, levou 20 anos a traduzir e adaptar para o português,  o linguajar rústico, mistura de espanhol arcaico com expressões indígenas, próprio do personagem que habitava aqueles pampas, o gaúcho nômade e aventureiro. É considerada uma das melhores traduções, das quase cem que já se fizeram do poema.
Mas como poeta apaixonado pelos hábitos e pela cultura do Rio Grande do Sul, Nogueira Leiria nos deixou inúmeros e singelos versos como este, que mandei gravar na minha cuia de chimarrão:
Casco de morena cor.
Com teu bojo olente e morno,
Lembro ao tato o contorno
de um seio quente de amor.

O mestre Zen

Esta me foi contada pelo meu amigo e guru Flavio Oliveira, professor, pianista e compositor (e um incorrigível melodista), como exemplo de tentativa vã…
O Mestre Zen convida seus jovens discípulos a acompanharem-no até a colina próxima para, juntos, observarem e meditarem ao surgimento da primeira estrela. Sentam-se na posição clássica, em semi círculo, e olham para o ceu em direção ao oeste. Ao primeiro clarão da estrela (na realidade, o planeta Venus, mas deixa pra lá), o mestre Zen aponta e grita: “Olhem! Os jovens discípulos, entusiasmados pelo evento, em vez de olharem para o astro que surgia, olham para o dedo que o apontava…”

Balcão de Livraria

Num encontro com o Igor, explicava-lhe eu da minha dificuldade em encontrar um assunto para estrear no blog da Cultura, da minha momentânea falta de idéias e das minhas dúvidas em escolher alguma outra coisa a abordar que não fossem apenas música, cinema, livros… Concordávamos que os temas deveriam ser resultado das nossas observações e vivências diárias, tanto as do âmbito da Livraria, quanto as vivenciadas em casa ou com amigos, mas desde que fossem verdadeiras. Num bar da Vila Madalena, o Genial, estava eu a tentar por em ordem essas idéias todas, tudo aquilo que fora conversado com o Igor, rodeado de copos de chope, comidinhas, Coca Light e de pessoas que ainda precisam de um cigarro para conseguir desenvolver algum assunto, quando me veio à memória um dos personagens da minha formação, o professor Herbert Caro, e o quanto ele tinha a ver com aquela situação que se criara. Eu o conheci nos meus vinte anos, durante um ciclo de palestras sobre os duzentos anos de Beethoven promovidas pelo Instituto Goethe, em Porto Alegre, e que culminaria numa série de Concertos promovidos pela Ospa, (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre), com a integral das Nove Sinfonias e dos Cinco Concertos para Piano.
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