12/03/2010   RSS posts: 982comentários: 2.174 updaters: 558
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Author Archive for Suzzana .

Ah, Maria…

Que me desculpem os que acharem piegas, mas eu não posso deixar de falar do cd de Maria Gadú depois de tê-lo ouvido trezentas e setenta e dez vezes mais quinze vezes vinte e dois. É verdade, passei o dia todo editando fotos enquanto o cd estava norepeat e de forma alguma fiquei incomodada – pelo contrário, estou a cada segundo mais apaixonada. 

Eu não sei o que acontece, mas a voz grave e rouca da cantora interpretando músicas conhecidas – demais até - e que haviam saturado já (pelo menos a mim), me fizeram parar e perceber de uma forma diferente o modo como eu sentia as letras. Não sei se é o dia chuvoso que ajudou, mas fazia tempo que um cd não me deixava assim. Depois do quarteto de cordas do Phillip Glass interpretado pelo Kronos Quartet, que me causou uma síncope quando ouvi, eu já havia desistido de me encantar com qualquer outra coisa. Glass havia me completado.

E veja só, eu que sou completamente chata com músicas que estão na moda,  fiquei embasbacada com a interpretação de Maria Gadú durante todo o cd. E me derreti, escorri e evaporei ouvindo Ne me quites Pas. Daí eu percebi que Glass, na verdade, havia me enchido, mas ainda tinha espaço pra eu transbordar.

Então entendi que nem sempre o que está na moda o faz por um motivo místico que não conseguimos compreender (afinal de contas, a gente costuma ficar chocado com algumas coisas que vemos) – às vezes entra na moda simplesmente por ser maravilhoso (o caso da dona Maria).

É isso, queridos.  Acredito que esse seja meu último post por aqui, então agradeço a vocês todo o carinho do último ano. Espero que o cd cause reações em vocês tão adversas e controversas quanto me causou.  E depois dessa declaração-quase-uma-carta-de-amor-de-Napoleão, eu os deixo com um trecho da música mais conhecida da cantora : Ser capitã desse mundo /Poder rodar sem fronteiras/ Viver um ano em segundos / Não achar sonhos besteira / Me encantar com um livro/ que fale sobre vaidade/ Quando mentir for preciso/ poder falar a verdade . Amém.

Dia 18 de outubro (ou do pintor)

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Há séculos a pintura necessitava tanto de linha e desenho, que a cor acabava caindo no lugar-comum: justaposição de contrastes que, se bem utilizados, tornariam o quadro belo, buscando uma iluminação precária (que bem provavelmente traduziam a época). As cores foram tomando seu lugar dentro da pintura no decorrer dos séculos, e acabaram se prendendo durante muito tempo às metáforas fáceis necessárias à compreensão do fantástico das obras: pintava-se o recém-nascido Jesus num estábulo escuro que era iluminado apenas por sua Glória, por exemplo. E a essas representações, também, ligava-se o desenho : a mentira representada como uma mulher bonita e afins. Regras essas que fizeram a Idade Média ser um período tão longo e interminavelmente monótono, dentro da Arte.

Impressionante é pensar no tempo que ficou engessada numa mesma linguagem, embora as revoluções técnicas e as pequenas variações de temas, quando realizadas,  fossem notáveis, mas sempre muito próximas: de afresco e têmpera mudou-se para têmpera ovo em tela, e então óleo sobre tela, betume, verniz – sempre um líquido sobre suporte, sem querer desmerecer toda a evolução que se teve no decorrer do tempo. As cores de complementares justapostas passaram a ser usadas em escala de cinza e pequenas variações de tons, em seguida preferiu-se a combinação de tons escuros coerentes com o Período Medieval; o Renascimento e as cores mais claras ligadas à redescoberta do homem, o rococó e suas cores lindamente doces como geléia, que expressavam o desejo daquela vida estupidamente feliz, seguindo assim até a contemporaneidade, desembocando na fluorescência setentista relacionada ao LSD.

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Sobre pintores e seus modelos

Observando o trabalho de Gerard Fromanger (ao lado), percebe-se que o artista aborda questões bastante atuais, utilizando uma linguagem contemporânea na confecção de suas obras. Por outro lado, é interessante ilustrar seu trabalho por meio de um texto que discorre sobre outro artista - Gerard às vezes é tão próximo a Diego Velasquez, que se pode analisar uma série de telas do pintor contemporâneo baseando-se num ensaio sobre uma obra do artista barroco: pois “de uma forma bastante ousada para a época, o artista põe em evidência alguns dos rostos socialmente menos marcantes na vida diária(…)- onde se inclui ele próprio, (…) que aqui aparecem refletidos em pequenas silhuetas fantas­magóricas(…)”* .

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sete artes: voltando às perspectivas.

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Sobre a tela que irei fazer, não posso deixar de citar uma obra que mudou minha vida : A Pintura, de Jacqueline Lichtenstein. Na verdade é um livro em francês de 900 páginas que foi editado no Brasil sob formato de uma coleção de 14 pequenos livros, pela editora 34. Em um dos volumes, lembro de ter lido um texto de Johannes Itten, onde ele dizia que na pintura o fundamental é ou a cor, ou a linha. E no meu caso, digo que abandonei a linha há muito tempo.

E se me é permitido citá-lo novamente, posso prever que minha definição de Literatura expressa através de tinta acrílica e algodão estará ligada à um colorismo forte, devidamente vindo do hábito de utilizar os filtros da minha Canon. Filtros esses que costumo utilizar para fingir(ou seria tentar expressar?) que vejo o mundo com outros tons, deixando-os gravados em minhas fotografias .

E além da cor, que já estou programando que seja desbotada, haverá texto, muito texto, e um desenho perspectivo que se perde. É que a perspectiva - que se torna abstrata - juntamente à uma cor bem definida, formará a composição - por sinal confusa.

Sete Artes : Metalinguagem.

Não que a metalinguagem seja uma arte em si, mas o fato de ter que discorrer sobre a Literatura acaba o sendo. É que alguém devia ter escolhido esse tema : pois eu o fiz. E confesso, meus caros, que não tenho idéia de como transformar em telas toda a minha relação com os livros. Pior, como transformar em uma tela as coisas que li até hoje. Sei que a metalinguagem estará em meu trabalho, como sempre - textos que formam desenhos, que de algum modo estão intimamente interligados.

Também não posso dizer que pintar é meu forte - desde antes de decidir estudar arte academicamente eu já sabia que minha verdadeira vocação era para a fotografia. Mas o fato é que, o contato com a pintura me fez apaixonar por essa arte à terceira vista (as duas primeiras experiências não foram lá muito agradáveis). E cá estou : minha missão é juntar Caio, Leminski, Shakespeare, Andy Warhol, Sartre, Campos de Carvalho, Susan Sontag, Gombrich, Argan, uma placa de acrílico fluorescente, canetinha preta para cd, uma tela de algodão, gesso, tinta acrílica, cola, dentre outras coisas e nomes, num projeto no qual eu consiga me vomitar de tal forma que nem os literários nem os artistas se sintam ofendidos.

Como farei isso, não sei. Por enquanto permaneço lendo, lendo, lendo… hoje, O Imaginário Segundo a Natureza, de Bresson. Cedo ou tarde, a idéia virá. As referências e  o quanto elas me ajudarão também. E tudo será executado em nada mais que vinte minutos -  é que a minha alergia à tinta à óleo me fez virar adepta do movimento fast-painting .

(continua…)

E por falar em FLIP…

No próximo sábado, dia 04 de julho, quem participa da  FLIP  é a artista plástica, performer, fotógrafa e inimitável Sophie Calle. A artista deixou seu rastro no Brasil ano passado, quando expôs a obra La Filature (A Perseguição) na 28a Bienal da Arte de São Paulo.
Para quem desconhece o trabalho de Calle, pode-se fazer um resumo geral apenas pelo nome de algumas obras :  A Perseguição, 1981;  Suíte Veneziana, 1979; Os que dormem, também de 79;  Sem Sexo na Ultima Noite, 1992. Nomes um tanto quanto… intimistas, não?
Sophie na verdade definiu sua linha de pesquisa quando seguiu um desconhecido em Paris- fotografou, anotou, investigou e montou uma exposição para expor a vida do seu objeto de estudo. E desde então é artista e parte de todas as suas obras que tem apenas um foco: ser humano. Suas exposições baseiam-se numa experiência que ela própria vivenciou e relatou - seja seguir um desconhecido de Paris à Veneza, pedir para a própria mãe contratar um detetive para que pudesse ser seguida - e na verdade era ela quem seguia ele, ou até viajar de NY a Califórnia de carro com o namorado - e veja só, pedi-lo em casamento no final.
A obra de Calle ultrapassa o conceito comum de arte - e não só tem por função causar algo no outro, como também faz com que esse  seja parte de sua obra. Fagocita e leva-o para as paredes de uma galeria, para as bienais, transforma aquela pessoa que até então era desconhecida num ser tão interessante e profundo, que o espectador torna-se sedento por saber mais e mais sobre aquele anônimo.
Depois da FLIP, no próximo dia 10, a artista abre a exposição Prenez Soin de Vous no SESC - SP, obra inteiramente baseada no fim de um relacionamento: Sophie recebeu do ex-namorado um e-mail cuja a última frase era “cuide-se”. E foi o que fez. Para saber do que se trata, melhor mesmo é não perder a exposição :  fica em São Paulo até dia 07 de Setembro, partindo para o MAM de Salvador dia 22.

C_MPL_TE: O N_vo álb_m d_s Móve_s Colon_ais de Ac_ju

A primeira vez que fui num show do Móveis Coloniais de Acaju, achei a coisa mais exagerada da face da terra . Fiquei muito tempo sem ter notícias da banda, até que conheci o Fábio e participei de um show dos caras. Foi amor à segunda vista. A roda - a maravilhosa, famosa, tão esperada roda - se formou no meio da multidão num determinado momento do show, e conquistou meu coraçãozinho instantaneamente. A idéia é se divertir enquanto trabalha, não é mesmo? E esse segredo eles aprenderam bem.
Móveis convida 2009. 
Ska puro o primeiro álbum dos brasilienses. Aliás, puro é muito pouca coisa - era Ska, MPB, polca, umomontedemisturasnomesmosaco. Animadíssimo, surtante. E depois de três, quatro anos desde a primeira impressão, analiso o último show na cidade, o que fizeram para lançar o novo cd : lindo.
As letras continuam com a mesma ironia de sempre, mas agora é coisa de gente grande - e esquecemos, por alguns instantes, a brincadeira toda dos primórdios do Idem. Produção de alto nível, uma união perfeita dos nove músicos, sem excessos, calculadamente realizada por Carlos Eduardo Miranda. O resultado foi um cd sequinho, maduro, bonito.
E finalmente - finaaaalmente! - o álbum C_MPL_TE chega ao mercado na segunda quinzena de junho (com show gratuito na Livraria Cultura de Brasília, iei!). E que venham os cds, os shows, os programas de tevê. E toda vez que vier/ felicidade vai trazer/a cada vez que quiser/ basta a gente querer / ser desta vez a melhor.

E o paisagismo, Roberto?

É sabido que Roberto Burle Marx é um nome de peso Brasil afora devido à sua grande atuação junto aos arquitetos modernistas do país, e graças a isso, quando se coloca os pés na Caixa Cultural em Brasília a primeira pergunta que vem à cabeça é : e o paisagismo, meu caro?
Pelos corredores da galeria só são vistas impressões de gravuras: coloridas, preto e branco, litografias, pontas secas, água forte. Cópias feitas de chapas de 1,60 m x o,80 m ou maiores, impressões numeradas como 1/40 ou 1/100, dentre outros números absurdamente altos (pelo menos para mim, mera estudante da coisa). E o que mais encanta é a data de gravação das obras - todas de quando o artista já havia entrado na casa da terceira idade.
Gravuras extremamente elaboradas, feitas com matrizes de quatro, cinco cores, de uma beleza tão delicada, tão abstrata, e ao mesmo tempo tão tocante que, depois de vinte minutos andando por entre aqueles quadros você nem se lembra do paisagista, mas somente do gravador. E afinal de contas, quem se importa com o título de Burle Marx? É arte o que tem naquelas paredes, linda, bela e pura arte. No Taperapecu azul, na Itaituba, na Apipucos - e nem decorar os nomes você consegue, senão pensar naquelas formas todas que te engolem enquanto você caminha pela galeria. 
A exposição se instalou em Brasília para comemorar o centenário de nascimento do artista, que veio a falecer em 1994. Exposição essa de montagem impecável, por sinal - algo tão raro hoje em dia - que fica na cidade até dia 07 de junho.  E nós, meros mortais, esperamos ver mais coisas de Burle Marx em breve, sejam gravuras, pinturas, esculturas, tapeçaria, jóias… add infinitum .

Virá da Rússia.

 

Quem pegou avião pra ir de Brasília rumo a São Paulo ver Duchamp, Marina Abramovic, Sophie Calle, Rodin, Krajcberg, Margaret Mee, Vik Muniz e tantos outros nomes que nunca vieram para a capital do país, agora pode ajoelhar e agradecer pela exposição que chegou à cidade:  Virada Russa , com curadoria coletiva de Yevgenia Petrova, Joseph Kiblitsky, Ania Rodriguez e Rodolfo de Athayde.

Se arme antes de entrar:  Rachmaninoff - Allegro ma non Tanto  no MP3 e seja transportado para uma época conturbada da história da arte, para uma década de crise que cortava um país de norte a sul, regando de anseios e revoluções a vida de uma população oprimida, a arte completamente engessada que existia, a música já ultrapassada.  Revolução está explicitamente gritando naqueles quadros, contada em cada risco azul opaco de Larionov, cada tela industrializada de Olga Rozanova, cada forma geométrica calculadamente pintada de Maliévitch. Revolução é o que causam em você: história pura, tradição, crítica social, crítica polítca, a ruptura com o antigo, o não-objetivismo, a vanguarda, a mudança - tudo de uma forma tão carregada que é impossível não sair daquele lugar sem ter um colapso.

E no fim ainda dá pra ver Kandindinsky, o teórico das páginas e mais páginas de linha sobre plano, de cor justaposta, de movimento, se mostrando num quadro tão suave que serve para te abraçar depois do choque dos dois andares de exposição.

A montagem em si foi bem articulada, embora algumas telas peçam para respirar mais - o que é estruturalmente impossível devido ao número obras. Mas é tudo tão grande e expressivo que dá pra superar.  Além disso, as 123 peças da mostra formam amais significativa exposição já realizada no Brasil sobre o tema.

A Virada Russa sai de Brasília dia 7 de junho rumo ao Rio de Janeiro, onde fica de 23 de junho a 23 de Agosto, e termina o ano pousando - nada mais justo - em São Paulo, chegando em 15 de setembro e ficando dois meses. E dá tempo de pegar o avião ainda num dia  vermelho de Outubro  pra se sentir virado mais uma vez.



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