Minha relação com Chopin começou relativamente tarde, quando eu já era estudante de música. Até então, eu o considerava apenas um melodista incorrigível, um romântico extremo sem nada de heroico, e que absolutamente jamais encontraria lugar entre os meus ídolos do momento, mesmo românticos, como Beethoven, Schubert,Schumann, Brahms e Wagner. Mas o motivo para tamanha indiferença teria que ter uma razão de ser, afinal, a importância musicológica de Chopin é inquestionável e permanece nova a duzentos anos. Chopin, alem de grande compositor, foi um pianista virtuose. Escondidas entre as simplicidades melódicas e harmônicas de algumas de suas peças, estão exigências técnicas enormes, incapazes de serem vencidas por pianistas desprovidos de talento. Em poucos compassos de uma de suas Mazurkas, por exemplo, encontramos indicações tais como con anima, dolcissimo, ritenuto, a tempo, sotto voce, mancando, sempre rallentando, assim como exigências constantes de pedal.
A música da escola romântica, e a música de Chopin especificamente, é difícil de se tocar não apenas pelos seus aspectos técnicos, mas principalmente, pelo seu caráter. A palavra sensibilidade, aqui, pode gerar contornos exageradamente desproporcionais e incontroláveis. A tendência de alguns solistas, ou mesmo regentes, é torná-la ainda mais romântica, com tempos arrastados, rubatos em excesso, dinâmica inadequada, e a música de Chopin é o veículo ideal para esse extravasamento exagerado de emoções; quando ele pede uma lágrima, apenas, chora-se convulsivamente.
Acostumado à linearilidade de Bach, ao rigorismo formal de Haydn, às exigências precisas de Beethoven, ao formalismo neoclássico de Brahms, tais exageros emotivos proporcionados por alguns intérpretes chopinianos, como Malcunzinski, Brailowski, ou mesmo o intérprete da trilha sonora de À Noite Sonhamos, Jose Iturbi, por exemplo, tornaram-me azedo com relação à sua música. Pelo seu caráter, pela sua facilidade em cantar, pelo seu romantismo quase feminino, Chopin é um dos compositores mais fáceis de se tocar mal. Foram necessários alguns anos de maturidade e aprendizado, e de escutas formais para que eu, finalmente, percebesse essas diferenças.
Hoje, recuperado o tempo perdido - e isso graças às mãos e à sensibilidade de um Claudio Arrau, um Maurizio Pollini, um Emanuel Ax, uma Maria João Pires e, é claro, um Arthur Rubinstein, talvez seu mais dedicado intérprete - Chopin, finalmente, tornou-se uma das minhas referências.