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No Brasil: um trator chamado Neil LaBute

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Neil LaBute é escritor, roteirista, diretor de cinema, mas sua força vem mesmo da dramaturgia teatral, tendo se especializado nela através da Brigham Young University (onde foi homenageado como “um dos mais promissores dramaturgos”), e nas mais de 15 produções que participou, seja como autor, diretor ou produtor. Também estudou dramaturgia na Universidade de Nova Iorque. Com apenas 46 anos, LaBute é um trator, considerado pelo mainstream da critica norte-americana como um autor provocador, malévolo, “the meanest man in Hollywood”, “bad boy”, irreverente e politicamente incorreto, mas sempre brilhante.

Influenciado por David Mamet (Pulitzer), percorreu uma trajetória corajosa na arte cênica, sendo aclamado como um “diretor controverso”, lembrado por seus sombrios painéis das relações humanas contemporâneas, com forte simbolismo sexista, como nos filmes/peças “Na Companhia de Homens” e “Seus Amigos, Seus Vizinhos”, “bash” e “The Shape of Things”.

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Já sendo reconhecido no teatro desde o inicio dos anos 90, LaBute explodiu no cinema em 97 com “Na Companhia dos Homens”. Trata-se de um filme pesado, narrando a história de dois executivos que são abandonados por suas namoradas e decidem obter vingança. Encontram uma vítima perfeita na secretária surda e muda, que seduzem e abandonam. Com diálogos envolventes, marcado pelo embate psicológico entre os dois, o filme foi considerado um dos mais inteligentes dos últimos anos, recebendo o premio de “melhor realizador” do primeiro Festival Sundance, e o “Independent Spirit Awards” de melhor roteiro no mesmo ano.

Em 98, ele volta ao cinema com “Seus Amigos, Seus Vizinhos”, protagonizado Aaaron Eckhart (amigo pessoal), em que narra a vida de três homens e três mulheres vivendo às voltas com seus cômicos problemas de relacionamento. Na seqüência, em 2000, LaBute dirige “A enfermeira Betty”, onde obtém enorme sucesso com a história de uma garçonete (Renée Zellweger) de uma pequena cidade que sonha com seu verdadeiro amor (Greg Kinnear), médico da novela “Uma Razão Para Amar”, que ela assiste todos os dias. Depois de testemunhar o assassinato de seu marido, dá uma guinada em sua vida e percebe que as coisas não são tão novelescas como imaginava. Morgan Freeman realça o filme como um pistoleiro impiedoso. O filme catapultou LaBute no cinema, sendo lembrado como melhor argumento para a Palma de Ouro, em Cannes, e tendo Zellweger recebido o Globo de Ouro pela interpretação.

Depois vieram “Possessão” (2002), um delicioso romance novamente com Aaron Eckhart, agora contracenando com Gwyneth Paltrow, “Arte, Amor e Ilusão” (2003), “O Sacrifício” (2006), refilmagem de “O Homem de Palha”, e um dos filmes selecionados para o Festival de Veneza, e “O Vizinho”, que narra a história de um jovem casal que se torna alvo do vizinho (Samuel L. Jackson), que é contra o casamento deles por serem de raças diferentes.

Mas é no teatro que Neil impõe respeito, embora nunca abandone a praia da controvérsia. Em sua primeira peça “Filthy Talk for Troubled Times” (1992), um espectador abandonou a sala aos gritos de “matem o dramaturgo!”. Seu trabalho teatral é encenado no mundo todo, sendo ele próprio diretor em algumas das mais prestigiadas companhias americanas e inglesas, como a Steppenwolf Theatre Company, o Almeida Theatre, o MCC Theater e o Ambassador Theatre Group.

Além de “Filthy Talk”, La Bute escreveu várias outros sucessos, como “Bash: Latter-Day Plays” (1999), “The Shape of Things” (2001), “The Distance From Here” (2002), “The Mercy Seat” (2002), “Autobahn” (2003), “Fat Pig” (2004), “This Is How It Goes” (2005), “Some Girl(s)” (2005), “In A Dark Dark House” (2007), “Reasons to be pretty” (2008) e “Wrecks” (2005). No Brasil, estreou recentemente o monólogo Restos, em cartaz até novembro no Teatro Faap (SP), com a interpretação-solo de Antônio Fagundes. Algumas das peças de LaBute também se transformaram em obras cinematográficas, mas seu trabalho como realizador teatral não deixa margem à dúvida sobre seu imenso talento como dramaturgo.

Em artigo ao jornal The Guardian, em 15 de janeiro de 2008, LaBute mostra que sua fonte de inspiração (“heróis literários”) foram os escritores britânicos Harold Pinter, Edward Bond, David Hare, Howard Brenton, Caryl Churchill e Howard Barker. Segundo ele, “a esses autores devo minha vida criativa”. Crítico em relação ao atual teatro americano, La Bute diz que todos os autores têm sempre uma boa história política escondida em alguma gaveta, mas que eles pararam de escrevê-las. Para ele, os dramaturgos atuais têm medo de colocar o dedo na ferida e isso empobrece o teatro. “Não devemos ter medo de colocar as grandes questões no palco e acredito firmemente que esse é o trabalho do dramaturgo”. LaBute mostra nesse ensaio que admira muito seus antepassados britânicos que lutaram pela liberdade de expressão, mostrando que nada deveria ficar por debaixo do pano (“sobre as forragens”). “Eles lutaram, por exemplo, na década de 60, pelo nosso direito de gritar a cada obscenidade, e mostrar cada centímetro da carne humana em um palco. Essas pessoas lutaram para que pudéssemos dizer o que pensamos, e para que realmente pudéssemos dar voz ao impensável”, escreveu o autor.

O desabafo de Neil sempre esteve presente em sua obra teatral. Em “Restos” (Wrecks), ele retrata Edward Carr, um homem simples, pai devotado e comerciante de sucesso, que vê seu cotidiano destruído após a morte da mulher. Em entrevista à Revista Cultura de setembro, Fagundes fala do dramaturgo como um autor bastante polêmico, porque escreve textos sempre surpreendentes, alguns com extrema crueldade. “A peça se passa num velório e, por incrível que pareça, lá se comemora mais a vida, o amor e a paixão, mais a nossa relação com a vida do que com a morte, que não toma conta dessa narrativa. Ela está na outra sala. Neil LaBute é um autor americano bastante polêmico, porque escreve textos sempre surpreendentes, alguns com extrema crueldade. Sempre muito interessantes, com uma dramaturgia moderna. Ele lida muito bem com o jogo teatral. Pode-se sempre esperar dele o que chamamos de “golpe de teatro”, que é um final surpreendente. Deveria se pedir ao público, nas peças dele, para não contar o final. Tenho impressão de que o final é tão surpreendente que a plateia fica inibida de contar, porque é fascinante”. (Leia entrevista completa aqui).

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