A incompreensão de raças é tão velha quanto “andar pra frente”. A cronologia da humilhação de negros e índios no Brasil remonta dos primórdios do descobrimento, quando a herança racista portuguesa, pra não dizer européia, chegou por aqui junto com Cabral, em 1500. No mesmo ano, Portugal iniciou o comércio de escravos negros para a América. O navegador português Bartolomeu Dias, célebre por ter sido o primeiro europeu a navegar além do sul da África, naufragou na mesma data, morrendo em frente ao Cabo da Boa Esperança. Ninguém sabe ao certo, mas é possível que sua carga era de negros escravos sendo levados aos mercados internacionais. A consciência branca naquela época era ganhar dinheiro com a inconsciência negra.
Cem anos depois (1600), negros foragidos dos engenhos de açúcar de Pernambuco fundaram o quilombo de Palmares, na serra da Barriga. Aquele oásis de liberdade foi se entulhando de escravos refugiados (chegaram quase a 30 mil), tornando-se uma “terra santa”, Terra da Promissão. Em 1605, a rebeldia dos escravos avança, enquanto na Europa Cervantes publica “D. Quixote” e Francis Bacon lança o seu “O Progresso do Conhecimento”. O mundo branco se intelectualiza, enquanto o mundo negro, ou fragmentos dele, se conscientiza, aos poucos, às escuras.
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Em 1630 os holandeses invadem o Nordeste, e quatorze anos depois, 1644, falham em expulsar os escravos e extinguir Palmares. Mas em 1654, os portugueses não falham em expulsar os holandeses. Um ano depois, nasce Zumbi, que mesmo antes da adolescência já é preso e dado ao padre António Melo, que o batiza com o nome de Francisco. Zumbi ajuda na missa, estuda português e se atrapalha no latim. A consciência negra gatinha, mas caminha. Em 1670, o filósofo holandês Espinosa publica a obra “Tratado Teológico-Político” e Pascal publica “Pensamentos”. Duas obras de grande envergadura, envergadura branca, claro. No mesmo ano Zumbi foge e regressa a Palmares, onde em 1675 mostra grande coragem na luta contra os soldados portugueses comandados pelo brutamonte Manuel Lopes.
Três anos depois, 1678, o governador da capitania de Pernambuco propõe ao chefe de Palmares, Ganga Zumba, a paz e a alforria para todos os quilombolas. A consciência branca sempre gostou de enganar a consciência negra. Zumba aceita, Zumbi não. Ele não admite que aja alforria para uns e não para todos. Na mesma época, na Europa, Van Leeuwenhock descobre os espermatozóides, Espinosa lança “Ética” e Racine publica “Fedra”. O pré-iluminismo vai tomando forma, forma branca, claro.
Em 1680, Zumbi comanda tudo e todos em Palmares, e enfrenta as tropas portuguesas de forma incessante. Mas a luta é desigual, mortal, selvagem e em 1694 ele recebe uma pesada artilharia, recebe as tropas de Domingos Jorge Velho e recebe também um ataque final, no principal mocambo de Palmares. Ferido, foge. Localizado em 20 de novembro de 1695, é degolado. Vira mito, vira lenda, vira único. Na mesma época, na Europa, o filósofo, cientista e matemático Leibniz publica “Novo Sistema da Natureza”.
No século XVIII, o iluminismo branco pressiona o imobilismo branquela e a consciência negra começa a ter alguma chance. Em 1761 a escravidão é abolida em Portugal. Em 1794 é abolida na França, e em 1823 o Chile a rasga de sua história. Em 1833 é a vez do Reino Unido, e em 1863, os EUA fazem o mesmo. Em 1886 a escravidão desaparece legalmente da Espanha e de suas colônias, e em 1888 o Brasil também decreta seu fim.
Em 2003, o dia 20 de novembro, data da morte de Zumbi, passa a ser oficialmente o Dia Nacional da Consciência Negra. Mais de cinco séculos se passaram, sendo que nesse período milhões de negros escravos foram dizimados pela humanidade branca. Ainda precisamos de “um dia” para refletir sobre a consciência negra porque mesmo depois de séculos de humilhação a consciência branca ainda não se libertou das correntes que arrastam seus pés pelos porões da ignorância.
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