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Pamuk, mudando o mundo com os livros

op3Orhan Pamuk talvez seja hoje o mais importante escritor turco vivo. Embora seja cortejado por onde passe, ainda é demonizado em alguns lugares. Os próprios tribunais de seu país, por exemplo, já infernizaram sua vida, quando chegou a ser acusado de ofender a identidade nacional depois de uma entrevista em 2005, quando declarou “que ninguém no país atrevia-se a mencionar a morte de um milhão de armênios na Turquia durante a Primeira Guerra Mundial, ou a morte de 30 mil curdos nas últimas décadas” (vive fora da Turquia porque foi ameaçado por extremistas locais). Foi absolvido e, em 2006, ganhou o Nobel da Literatura, atropelando uma turma de F&F (famosos e favoritos), como John Updike, Philip Roth, Milan Kundera e Antònio Lobo Antunes.

Mas Pamuk não é um daqueles autores que livro-sim-livro-não cai na panfletagem política, engajada, claro, mas nem sempre interessante e envolvente. Seu primeiro e último livro realmente sobre política (ele mesmo declara ser o último) é “Neve”, onde narra a vida do poeta e jornalista Ka, um exilado político vivendo na Alemanha que volta a sua cidade natal na Turquia (chamada Kars, que em turco significa Neve). Seus romances, embora sempre adicionem valor às questões político-sociais de sua terra, estão repletos de beleza, fantasia, filosofia e muita reflexão.

Sua obra “Istambul - Memória e Cidade”, autobiográfica, é um passeio por essa fascinante cidade, sendo que Pamuk tenta estabelecer uma nova visão sobre ela, distanciado-a das “teorias tortas”, como aquela que pinta a cidade como um enclave europeu no Oriente. “Esse é um clichê turístico, de quem conhece apenas a parte da cidade habitada por 1 milhão de pessoas. Ora, a população de Istambul é de mais de 10 milhões de habitantes, maior do que Nova York, e é composta por gente pobre, migrantes de todas as partes da Turquia. Quer dizer, Istambul é uma cidade profundamente turca, digam o que disserem”, declarou à revista L’Express, em 2007.

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Em 2009, Pamuk viajou pelo mundo divulgando seu mais recente romance “The Museum of Innocence”, o primeiro desde que recebeu o Nobel. No final de novembro, o escritor deu uma longa entrevista a jornalista Selene Verri, da Euronews, onde entre outras coisas falou sobre seu livro “O Castelo Branco”, lançado aqui em 2007, e que narra a história de um acadêmico veneziano aprisionado pelos turcos no século XVII. Graças aos seus conhecimentos eruditos escapa de grandes humilhações, mas acaba sendo vendido como escravo e presenteado a um estudioso turco. Quando amo e escravo se encontram ocorre um choque sublime, pois ambos são muito parecidos.

Pamuk, na entrevista, explicou sobre o livro e sobre um de seus temas favoritos: “O tema da identidade talvez esteja em todos os meus romances. Quando comecei a escrevê-los, “O Castelo Branco” ou os anteriores, identidade não era uma palavra que estivesse na moda entre os acadêmicos e jornalistas. Por outro lado, uma vez que sempre houve problemas na Turquia, as questões sobre identidade dos indivíduos sempre foram levantadas e estão sempre presentes (somos orientais ou ocidentais?; quais são as nossas raízes?)”.

Mas quando, na mesma entrevista, Pamuk responde sobre seu livro “The New Life”, é que vemos sua cativante visão sobre o poder da palavra. O livro começa com uma frase: “Li um dia um livro e toda a minha vida mudou”. A jornalista Selene, que fez a entrevista em Lyon, na França, lhe questiona como um livro pode mudar a vida de alguém? Como um escritor sente que pode mudar alguma coisa? A resposta de Pamuk é soberana: “No mundo não-ocidental há muita tristeza, infelicidade econômica, pressões políticas, uma espécie de esperança apocalíptica em relação ao milênio, a revolução, as utopias… as pessoas leem um livro como “The New Life” com um entusiasmo de que ele possa lhes dar a chave para mudar o mundo. Claro que querem que o livro as entretenha, mas aquilo que esperam do mundo é de tal forma forte, que elas esperam que ele lhes diga coisas, lhes sussurre coisas sobre mudança com uma intensidade religiosa. Quando era novo, li livros assim e acredito que os livros devem ser escritos e lidos sempre com essa intensidade”.

Mudar o mundo, ou mudar nossa Terra, ou mudar ao menos nossa vida é um desejo sem fim. Acordamos fazendo apostas, fazendo planos, prometendo mudanças, jurando que agora há de acontecer… Às vezes acontece, às vezes não. Mas entendo o que Pamuk fala, porque já li muitos livros esperando que eles me ajudassem a mudar o mundo. E ajudaram, e ajudam. Sempre preciso deles. Sem autores como Pamuk, e sem a esperança da transformação, somos festim.

1 Response to “Pamuk, mudando o mundo com os livros”


  1. Gravatar Icon 1 Spencer

    nunca dei muita bola para ele, vou tentar explorar, belo texto.

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