Há 688 anos morria Dante Alighieri. Sempre me indago como pessoas como ele, que viveram há quase sete séculos, podem ainda exercer tal influência na literatura, na poesia e na religião. Encanta-me perceber como sua obra máxima, “A Divina Comédia”, ainda é alvo de estudo em universidades e sua trilha de inspiração ainda afeta filósofos, teólogos e o mundo literário em geral.
A perenidade da “Comédia” é um espanto. A obra, escrita em italiano entre 1307 e 1321, é narrada em versos que descrevem uma viagem pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, e está dividida em 100 capítulos chamados de cantos. Com a ajuda do personagem Virgílio (poeta da antiguidade que escreveu Eneida) Dante percorre os dois primeiros e terríveis “ambientes divinos” (Inferno e Purgatório) para ter o direito de entrar no Paraíso, com auxílio de sua amada, Beatrice.
Num determinado momento de sua vida, ainda jovem, Dante se envolve na política de Florença. Arruma muita confusão, é julgado, condenado, mas consegue fugir e nunca mais regressa a sua terra natal. O abalo dessa separação fica claro em seus primeiros anos de exílio, que são preenchidos por uma frenética criação literária (“Canções Doutrinárias e Morais”, “O Banquete”, “De Vulgari Eloquentia”, “Convívio”, etc.). Ao que tudo indica, em 1307, o poeta começa a escrever sua “Divina Comédia”, que seria considerada uma das maiores epopéias de todos os tempos. A partir desse ponto sua vida é inteiramente dedicada a esse monumento poético, e no ano de sua última publicação (onde se considera acabada), 1321, o autor morre.
Foi chamada por ele somente de “Comédia”, sendo que posteriormente, em 1555, recebeu do poeta Giovanni Boccaccio o nome de “Divina Comédia” (“divina!” aqui tem o sentido poético e não religioso). Dante mistura o trivial e o sagrado, o amor e a paixão, o divino e o profano, as evidências e a ficção numa sequência poética ensandecida e de grande valor literário. No fundo é a história da conversão do pecador, sendo que a intenção original do poeta, nem sempre clara enquanto obra acabada, era criar uma espécie de “modelo”, ou doutrina, que guiasse o leitor rumo à edificação celestial. Não por acaso o poema é carregado de alegorias, significados, símbolos e argumentos morais.
Continue lendo:
O poema contém uma engenhosa construção alegórica, equalizada com o pensamento de seu tempo, onde a literatura muitas vezes tinha como narrativa as viagens extraterrenas habilmente elaboradas para edificar o pecador e dar-lhe “uma nova chance” (Purgatório). Alguns julgavam (e julgam) a obra como puro esoterismo, afirmando que o poeta realmente fizera tal viajem insólita pelos “degraus do universo espiritual”. Não importa muito as intenções de Dante, mas o resultado que ele alcançou. A “Comédia” exerceu grande influência em poetas, músicos, pintores, cineastas e artistas em geral. Mestres como Gustave Doré, Sandro Botticelli, Salvador Dali, Michelangelo e William Blake estão entre os seus ilustradores. Compositores como Schumann e Rossini traduziram partes de seu poema em música e o compositor húngaro Franz Liszt usou a “Comédia” como tema de um de seus principais poemas sinfônicos.
O poeta morreu em um 14 de setembro, sereno, recompensado pela magnitude de sua criação, aliviado e estimulado pela amplitude de suas crenças e dogmas. Seu trabalho é um fenômeno da literatura, desses que ocorrem a cada par de séculos, ou a cada milênio ou a cada gênio que venha a nascer sob a inspiração dos deuses da palavra escrita.
