É difícil imaginar que um escritor ao ler uma determinada obra não tenha por um momento pensado: “como teria sido bom se o autor desse livro fosse eu”. Por isso, a Revista da Cultura de outubro convidou oito escritores contemporâneos para falar de livros que eles não escreveram, mas, gostariam de ter escrito. (Leia a matéria completa aqui).
Sérgio Rodrigues, autor do romance histórico Elza, a garota, escreveria Lolita, do russo Vladimir Nabokov. Já Luiz Ruffato, que lançou recentemente Estive em Lisboa e Lembrei de Você (leia post aqui), aponta Enquanto agonizo, de William Faulkner. Para o porto-alegrense João Gilberto Noll, autor de 15 obras – entre elas Acenos e Afagos – a escolha é de Notas do Subsolo, de Dostoiévski. A escritora Andréa del Fuego, autora de Minto enquanto posso, escreveria Os Detetives Selvagens, do chileno Roberto Bolaño. Para Adriana Lisboa, autora de Um beijo de colombina, foi o humor e o mundo nonsense de Lewis Carroll, em Alice no país das maravilhas, que tornou a obra uma de suas preferidas. Ivana Arruda Leite, que lançou recentemente seu primeiro romance, Hotel Novo Mundo, vai além e diz que escreveria todas as obras de Amós Oz, no qual é fã de carteirinha. Michel Laub, autor de O gato diz adeus, a escolha seria O náufrago, de Thomas Bernhard, pela excepcional ideia ao mesmo tempo trágica e engraçada.
Já Joca Reiners Terron só quer saber mesmo de escrever os livros que estão em sua mente. “Tenho medo de responder o que penso de verdade e me considerarem um babaca convencido, mas como talvez eu seja isto mesmo, vou falar a verdade: eu gostaria de escrever todos os livros que tenho na cachola e não de ter escrito o que outros já escreveram e bem. Mas falta tempo”. Mas, logo confessa sua vontade de ter escrito A Lua Vem da Ásia, de Campos de Carvalho.
Seja pela vaidade equilibrada, ou pela inveja (sim, ela existe e os escritores admitem!), por amor a obra, por prazer, por respeito ou por qualquer outro motivo é absolutamente orgânico que esse pensamento navegue pela mente de diferentes autores. Até Woody Allen já confessou seu desejo secreto: “Como todo o mundo, eu gostaria de ter escrito os romances russos. Eles teriam sido a maior diversão para mim. Nunca pensei em querer ter escrito qualquer outra coisa. Nunca pensei em ter escrito Ulysses, ou os trabalhos de Saul Bellow ou qualquer outra coisa, só os russos”.
Até aqui tudo bem, mas…
E os livros que eles NÃO gostariam de ter escrito?
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Sérgio Rodrigues diz que são incontáveis. “Talvez o jogo tenha mais graça se a resposta ficar restrita a livros respeitáveis, com uma qualidade acima de qualquer suspeita mas que mesmo assim, por incompatibilidade de gênios, eu jamais escreveria. Neste caso se encaixa toda a obra de Clarice Lispector”, conta.
Quem também não é muito “amigo” de uma das obras de Clarice Lispector é João Gilberto Noll, que citou “A paixão segundo G.H”. O motivo? Abstrato demais. “Fui muito enlouquecido por esse livro em minha juventude. Não é apenas uma narrativa, mas, uma visão do ser humano quando está muito lá dentro, na perspectiva metafísica. Ou seja, é um romance metafísico do começo ao fim que hoje já não gosto tanto. Continuo gostando de outras obras de Clarice, como “Laços de Família”, mas, “A paixão segundo G.H” é abstrato demais”, conta.
A escolha de Adriana Lisboa é mais, digamos, contundente: “nunca escreveria livros de auto-ajuda, por exemplo. Mas o livro que eu mais detestaria escrever, sem sombra de dúvida, seria a minha autobiografia”, brinca.
Já Michel Laub não se adaptaria a outras épocas. “Os que se passam em épocas distantes do passado (romances históricos, por exemplo) ou futuro (ficção científica). Isso demandaria um esforço de pesquisa e/ou imaginação que não tenho muita paciência para fazer”.
Por outro lado, Ivana Arruda Leite não se adaptaria ao estilo de uma outra geração. “Não escreveria centenas, milhares! [de livros] Pra ficar nos famosos, eu não escreveria nenhum livro da geração beat. Esse tipo de literatura “desleixada”, que parece escrita “nas coxas” à base de álcool e outros divertimentos não me faz a cabeça”.
Apesar de adorar, Andréa del Fuego não se adaptaria ao estilo do escritor americano Philip Roth. “Sou incapaz de colocar toda aquela veracidade no texto. É muito interessante, gosto daquele realismo, mas, ele não dá o recurso da metáfora para o leitor. Não tem alívio, só angústia. Então você fica preso ali, é extraordinário, mas, tenho quase raiva”.
Joca Reiners Terron, que lança no início de 2010 dois livros, “O Peso do Coração”, romance da coleção Amores Expressos (Cairo) e “Guia de Ruas Sem Saída”, é mais direto. “O papo ficou esquizofrênico demais. Não consigo invejar ninguém pela mediocridade ou pela falta de talento. Eu não escreveria um manual para conserto de carburadores, por exemplo, mas por pura incompetência minha para entender os carburadores”, brinca.
Então tá!
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*Crédito da ilustração: Magopaco
