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Villa-Lobos, ainda pouco conhecido

Ontem a memória de Villa varreu os jornais, sites, TVs, rádios ou qualquer mídia que goste de ser minimamente respeitada. Durante o ano todo falou-se muito sobre a vida de Heitor Villa-Lobos, e muito de sua obra foi executada no Brasil e no mundo, celebrando os 50 anos de sua morte (17/11/59). Apesar disso tudo, desconfio que esse brilhante compositor carioca ainda seja um ilustre desconhecido para grande parte da nação, e no próximo ano, sem mais nada a comemorar, ele volte a ser um “estranho no ninho”. Compositor com viés erudito, mas sotaque popular, Villa-Lobos ainda não foi descoberto como devia, ainda não foi reconhecido com merecia e ainda não foi homenageado como não são grande parte daqueles que aqui nascem, crescem, mostram imenso talento, são aplaudidos nos fóruns internacionais, mas continuam ausentes das mentes e corações de seu povo. Isso sempre acontece em países que não privilegiam a memória. Por aqui, artistas precisam ter parte de sua obra queimada em incêndios caseiros para serem lembrados, cultuados e valorizados. Quando as chamas cedem, o poder público se apequena, o poder privado se esconde e a memória da nação vira cinza.

É sublime quando reconhecemos o talento de alguém que o tem. Assim como é magnífico quando alguém com igual talento reconhece o brilhantismo de outro. O pianista polonês Arthur Rubinstein (1887-1982) talvez tenha sido um dos mais consagrados e reverenciados virtuosos do século XX. Foi um mito do teclado, executando boa parte do repertório romântico, gravando uma enorme quantidade de obras, aclamado na Europa e EUA, sendo até hoje uma inspiração para um pianista como Nelson Freire, outra glória nacional da música clássica. Pois bem, em 1919 o gênio Rubinstein veio ao Brasil. Entre um passeio e outro pelo Rio de Janeiro, o pianista insiste em conhecer o compositor de quem Ernest Ansermet (maestro suíço) lhe falara com entusiasmo em Buenos Aires. Rubinstein, que já era consagrado internacionalmente, foi assisti-lo no cinema Odeon, onde Villa tocava musiquinhas banais sem maiores atrativos. Lá pelas tantas o compositor emplaca uma das Danças Africanas, e o pianista polonês impressionado, no intervalo, vai cumprimentar o autor. Villa (então com 32 anos), de forma até agressiva, lhe rechaça (”Vous êtes un virtuoso, vous ne pouvez pas comprendre ma musique!..”).

Continue lendo:Conta a professora moçambiquense Leonor Lains, que no dia seguinte, pelas oito da manhã no Palace Hotel, Villa, acompanhado de uma dúzia de músicos, chegou ao quarto de Rubinstein. Meio sem jeito, pede que este ouça algumas das suas obras, e como os colegas músicos trabalham à tarde e à noite, ele não tinha outro horário para lhe mostrar. O pianista ouve e fica novamente impressionado, nascendo daí uma relação de amizade que iria acompanhar Villa até o fim. Rubinstein torna-se seu protetor e passa a interpretar suas músicas em seus concertos, lançando na Europa a obra Prole do Bebé, de Villa. Em homenagem ao pianista, o compositor brasileiro escreveu em 1926 o seu Rudepoema. Muito do sucesso internacional de Villa Lobos deveu-se a Rubinstein ter reconhecido seu talento.

No dia 12 de julho de 59, em Nova York, no Empire State Music Festival, Villa dirige a Symphony of the Air, naquele que seria seu último concerto. Fazia parte do programa o “Choros Nº 6″, “Papagaio do Moleque”, “Uirapuru”, “Descobrimento do Brasil - 1ª Suíte” e, em primeira audição mundial, as quatro canções da “Floresta do Amazonas”, interpretadas pelo soprano Ellinor Ross. Foi aclamado mais uma vez, com grande reconhecimento de sua obra e talento. Quatro meses mais tarde, aos 72 anos, Villa estava sendo velado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, sendo enterrado no Cemitério São João Batista. Na lápide de seu túmulo se lê: “Considero minhas obras como cartas que escrevi à posteridade sem esperar resposta”.

Villa-Lobos talvez tenha sido o mais brasileiro dos compositores brasileiros de música clássica. Pena que brasileiros não são muito bons em lembrar de brasileiros. A posteridade ainda está em dívida com o compositor.

Acompanhe abaixo Clélia Iruzun interpretando “Impressões Seresteiras”, de Villa-Lobos.

2 Responses to “Villa-Lobos, ainda pouco conhecido”


  1. Gravatar Icon 1 Marcelo Salgado (Cultura/Adm)

    Excelente teor histórico. Não sabia dessa importância do Rubinstein para que Villa alcançasse visibilidade no exterior (realmente, que ironia..!).

    Há um peso tão denso e (arquetipicamente) masculino em alguns momentos de Villa, e outras notas de leveza tão feminina que… Uma delícia.

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