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Adeus a Zé Rodrix

Nesta madrugada o Brasil perdeu um de seus maiores compositores: José Rodrigues Trindade, o Zé Rodrix, do famoso Trio Sá, Rodrix e Guarabuira. Foi autor de músicas como “Casa no Campo”, famosa na voz de Elis Regina, “Mestre Jonas” e “Soy Latino Americano”. Rodrix participava de uma comunidade de compositores, o Clube Caiubi, grupo que conheço e do qual foi um dos maiores incentivadores. Mesmo não o conhecendo pessoalmente sempre tive grande admiração por Rodrix - uma das minhas músicas preferidas é “Nunca senti tanto medo de ser feliz”, interpretada pelo seu parceiro Sonekka e por Barbara Rodrix, filha dele. E faço este post-homenagem também para que os leitores desse blog lembrem de Rodrix com muita alegria e bom humor, da forma como ele queria no seu auto-necrológio que escreveu há algum tempo, em 2004, e que estava guardado com o jornalista Alan Romero, em Lisboa. O texto, depois do jump, provavelmente teria sido endereçado ao poeta Felipe Cerquize.

Felipe:
Em resposta a seu completissimo questionario passo-lhe às mãos minhas
especificações para passamento e eventual necrologio.
Há alguns anos, gostaria de ter a causa-mortis preferida de meu pai:
assassinado aos 98 anos de idade com um tiro dado por um marido ciumento que o tivesse pego em pleno ato… mas hoje nao mais. Pode ser de fulminante ataque cardiaco, dentro da minha biblioteca, perto o suficiente da familia e dos amigos mas afastado o bastante para que, alertados pelos cachorros da casa, ja me encontrem morto, com um sorriso nos labios.
Pode sepultar-me em pleno mar, sob a forma de cinzas, ja que nao poderei
ser sepultado in totum no jardim da minha casa. Se conseguirem isso, no
entanto, que nao cobrem entradas para visitação, à moda do irmão da princesa: deixem que alem das pessoas os passarinhos e os animais da casa se refestelem no lugar, renovando diariamente o eterno ciclo da Natureza.
Ao enterro devem, atraves de convite formal, comparecer todos que foram
aos meus lançåmentos de livro: nada mais parecido com um velorio do que isso.
Peço parcimonia nos efluvios emocionais: já as risadas devem ser francas e sem limite. Creio inclusive que prepararei com antecedencia uma fita de piadas gravadas para animar o velorio e manter o pessoal na boa. Como dizia o Bozo, “sempre rir, sempre rir….”
La so deixarei a mim mesmo: mesmo os inimigos que comparecerem para ter certeza de que estou realmente morto podem voltar para casa em paz. Nao pretendo puxar a perna de ninguem à noite e nem assombra-los depois de morto.
Já os amigos podem contar comigo: havendo vida após a morte, volto para
avisar, da maneira mais pratica e menos assustadora que me for possivel. A
cremação deve ser feita depois que todos forem embora cuidar de seus proprios afazeres: enfrentar as chamas do forno terrestre ja será um gardne introito para a vida eterna.
Se conseguir, tentarei ser crooner da grande Orquestra de Jazz do
Inferno, vulgarmente chamada de SATANAZZ ALL-STARS: como ja vou chegar la tenente ou capitão, dada a minha imensa taxa de maldades realizadas sobre a Terra, creio que nao será dificil. Meu castigo certamente será cantar MPBdQ por toda a eternidade, mas mesmo com isso ainda se pode encontrar algum prazer, assim na terra como no inferno….é o que veremos a seguir.
No enterro podem tocar de tudo, menos as musicas que eu tenha feito. Mnha
morte servirá certamente para que se livrem nao apenas de mim mas tambem de minhas obras. Os herdeiros tambem nao merecem ouvi-las, sabendo que nada herdarão de minha lavra, porque, sendo eu adepto da politica do VAI TRABALHAR, VAGABUNDO, como meu pai fez comigo, ja tomei providencias para que essas musicas nao lhes rendam nem um tostão furado. Sendo um velorio moderno, recomendo musicas de carnaval antigo, as indiscutiveis, claro, com algumas discretas serpentinas e confetes jogadas sobre o caixão, fechado, naturalmente.
Morrer num Sabado à tarde, ser enterrado num Domingo antes do almoço, e
estar completamente esquecido na manhã de Segunda, sem atrapalhar a vida
profissional de ninguem: eis a perfeição que desejo na minha morte.
Muito grato.
beijos
Z

5 Responses to “Adeus a Zé Rodrix”


  1. Gravatar Icon 1 Maria Helena

    Zé Rodrix deixara muita saudade. Porém, suas canções estarão sempre vivas para alegrar nossos corações. Tive oportunidade de conhece-lo pessoalmente e trocar algumas idéias no no Clube Caiubi de Compositores em São Paulo. Obrigada pelo post

  2. Gravatar Icon 2 Alan Romero

    Ruy, parabéns pela bela homenagem, da qual o Zé é muito merecedor. Deixou-nos sua enorme herança musical, literária e humana. Saudade imensa.
    Tinha esse texto salvo no meu computador, na pasta de mensagens indeléveis. O Zé era um escritor compulsivo e espalhou generosamente sua sabedoria e seu humor cáustico em várias listas da internet. Esse necrológio ele escreveu motivado por uma discussão nascida a partir de uma crônica do Felipe Cerquize sobre a morte (fictícia, é claro) do Paul MacCartney. No fundo tem muito de profético, repare que ele conseguiu acertar a forma e o local. De resto, fez um resumo de suas opiniões sobre vários assuntos. Esse era o Zé! Saudade da sua G.A.R.G.A.L.H.A.D.A. (como gostava de grafar, uma de suas marcas registradas).

  3. Gravatar Icon 3 Gabriela Brabo

    Em sua vinda a Porto Alegre para lançamento de seu último livro, na Feira do Livro, ano passado, pude assistir ao talk-show do Zé e depois saímos em grupo para jantar. Papo animado, mesmo ele estando gripado, contou-nos passagens de sua vida com um fascínio e vivacidade incríveis. Embora lamente sua ida, farei exatamente a mesma coisa que sempre faço quando sinto saudades: ponho um cd dele pra tocar e saio cantando junto…

  4. Gravatar Icon 4 Felipe Cerquize

    Ruy, esse auto-necrológio foi realmente uma resposta do Zé Rodrix para um texto que escrevi para ele (e por solicitação dele) sobre sua própria morte. O meu texto era uma brincadeira com ele, em que anuncio a sua morte aos 144 anos.

    Sinto pelo ser humano, que conheci e com quem tive a oportunidade de me relacionar por cerca de cinco anos, e pela arte do nosso país, que perde um de seus expoentes.

    Ficam as saudades do amigo.

    Um abraço!

    Felipe Cerquize

  5. Gravatar Icon 5 Spencer

    Tinha mais talento do que mostrou. Ficou nos bastidores de alguns que tinham muito menos talento que ele.

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